Brasil, uma narcossociedade!

Muitos se questionam, diante da expansão do Primeiro Comando da Capital, Comando Vermelho e tutti quanti, se o Brasil se tornou um narcoestado. Fosse esse o cenário, não teríamos motivos para preocupações, já que a ineficiência estatal é um patrimônio brasileiro que defendemos com unhas e dentes.

Os traficantes do PCC e demais facções estão longe de ser meros burocratas cumpridores de expedientes — e aqui não se trata de exaltação, já que estamos diante de gente da pior espécie, que não deixa nada a dever ao tipo do Hamas, Hezbollah e Farc. Os traficantes brasileiros só são vítimas dentro da cabeça de dois tipos de pessoas: os artistas, cujo estado mental já foi atingido de modo irremediável em virtude do alto consumo de droga — inclusive de verba estatal. O outro tipo é o intelectual, aquele oriundo do esgoto em que se tornou o ensino universitário brasileiro, em especial na área de humanidades. O Brasil não é um narcoestado; a coisa é bem pior! Nosso país se transformou numa narcosociedade.

Aqui peço licença para separar Estado e sociedade, tal qual o filósofo queridinho da esquerda brasileira, Antonio Gramsci. Grosso modo, por Estado devemos entender todo o aparato burocrático — como as polícias, o Ministério Público, o Poder Judiciário e uma série de outros órgãos. Nesse sentido, não é possível sugerir que todo o aparato estatal brasileiro funcione de modo articulado para fomentar o tráfico de drogas. Muito pelo contrário.

Tomemos por exemplo a Coreia do Norte. A ditadura norte-coreana sofre severos embargos econômicos e vive à margem do mercado global. Como, então, o regime liderado por Kim Jong-un faz para materializar o ideal de sua filosofia comunista juche e sustentar seus delírios belicistas? Em regra, o Estado norte-coreano utiliza atividades ilícitas: tráfico de drogas, ataques cibernéticos ao sistema financeiro global, impressão de moeda falsa, tráfico de pessoas, entre outros crimes. Além do auxílio russo-chinês, é com o dinheiro dessas atividades ilícitas que a Coreia do Norte mantém suas forças armadas e seu programa nuclear. Não há, nesse cenário, a possibilidade de um órgão interno — um Ministério Público, uma Polícia Federal — investigar o serviço secreto norte-coreano, pois toda a estrutura estatal é organizada e trabalha no sentido de conseguir meios para burlar as restrições propostas pelo sistema internacional. O crime, nesse caso, é uma ferramenta. A Bolívia e a Venezuela também são acusadas de ter seus Estados funcionando de modo a patrocinar a produção e o tráfico de cocaína mundo afora. A realidade brasileira está bem longe disso.

Aqui, quando o Estado não combate o crime ou o faz de maneira negligente, podemos estar diante da já aventada ineficiência estatal, de corrupção pontual em algum setor ou mesmo da desídia daqueles que devem promover a lei e a ordem. Não é possível afirmar que todo o Estado brasileiro se organiza para que o país envie as toneladas de drogas que chegam mensalmente de seus vizinhos andinos. Há muita gente séria trabalhando no sentido exatamente oposto. Existem policiais, promotores e juízes que, de maneira heroica, lutam contra as circunstâncias a fim de tentar mudar o curso de um cenário que parece irreversível. Enquanto se desenvolviam, as facções brasileiras não buscaram o controle sobre o Estado. Elas foram além e passaram a controlar a sociedade.

Seguindo à risca os ensinamentos de Antonio Gramsci sobre hegemonia cultural, artistas e intelectuais esquerdistas criaram um novo senso comum, uma nova forma de a sociedade enxergar o criminoso. Inicialmente, infundiram um sentimento de solidariedade acerca do bandido para, depois, promovê-lo a uma espécie de herói às avessas. A bandidolatria — expressão cunhada por dois desembargadores paulistas, Ricardo Dip e Volney Corrêa, e que empresta nome ao já clássico Bandidolatria e Democídio, livro escrito pelos promotores gaúchos Diego Pessi e Leonardo Giardin — revela o longo processo de degeneração cultural orquestrado pelas elites pensantes brasileiras, fundamental para a explosão da violência. Os traficantes se aproveitaram desse cenário e passaram a projetar seus interesses políticos e econômicos sobre toda a nação. Hoje é possível afirmar que praticamente todo e qualquer setor da sociedade brasileira experimenta a presença física ou simbólica do narcoterrorismo.

Os maneirismos de nossa juventude — roupas, gestos e gírias — são ditados pelos traficantes. Ricos celebram o crime cantando com Oruans da vida em grandes festivais, enquanto pobres dançam e cantam hinos do crime enquanto os soldados das facções apontam seus fuzis para o alto nos bailes funks das favelas. Na economia, o tráfico também marca presença. Seja naquilo que se convencionou chamar de economia de periferia, seja nos fundos sofisticados do mercado financeiro da Faria Lima, o dinheiro do tráfico mantém a roda do capitalismo girando. Na tal sociedade civil, proliferam ONGs que, sob o manto da luta por direitos humanos, promovem a agenda política do narcoterrorismo: desencarceramento ou abolicionismo penal, descriminalização das drogas, entre outras bandeiras — todas no sentido de contribuir com os interesses de quem vive do tráfico e lucra com a violência.

É possível afirmar, portanto, que cada vez mais setores da sociedade vivem em uma espécie de comunhão com as grandes facções criminosas. Essa adesão é sutil e mais bem-sucedida justamente porque é imperceptível. A repulsa natural ao criminoso — uma espécie de autodefesa moral e cognitiva — no brasileiro foi derrubada após décadas de engenharia social.

O trunfo das facções é muito maior, portanto, do que imaginam aqueles que acreditam estar o Brasil a caminho de se tornar um narcoestado. Pois, se é a sociedade que cria o que se pode chamar de espírito nacional — uma força motriz que conduz o povo de acordo com suas crenças e costumes — e se essa sociedade foi contagiada em seu âmago pelos valores dos bandidos, a realidade brasileira ganha contornos de tragédia sem precedentes no mundo civilizado. Um Estado carcomido pelo crime pode ser substituído por uma reforma, mesmo uma revolução, que eventualmente trate de expurgar seus elementos perniciosos. Agora, quando esses elementos já estão impregnados no tecido social, na alma da nação, o crime vai se espraiar ilimitadamente, como um tumor agressivo que avança por todas as vísceras possíveis.


2 respostas para “Brasil, uma narcossociedade!”.

  1. Você acredita que essa situação lá no RJ pode desencadear algo mais rigoroso no combate ao crime organizado no Brasil?

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    1. Definitivamente, não!

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