Culpados inocentes

A desfaçatez de Caco Barcellos e sua patota brindou o país com mais um episódio típico do cinismo esquerdista. O jornalista gaúcho ganhou fama com jornalismo investigativo, com ênfase em ações policiais. Quem já leu algumas das suas principais obras “Abusado” e “Rota 66” sabe o lado escolhido pelo premiado jornalista. Barcellos costuma retratar o policial como um agente frio, brutal, um assassino violento e cruel. Já sobre o criminoso, um tom pudico é devotado a esse pobre coitado, que  possui refinado senso de justiça, astúcia e inteligência, espécie de Robin Hood da pós-modernidade. Marcinho VP, o protagonista de “Abusado” é quase um herói injustiçado aos olhos de Barcellos.

O jornalista não esconde a admiração pelo traficante carioca, que foi morto em 2003, mas enquanto vivo era um dos principais nomes do Comando Vermelho. Talvez esse encanto tenha surgido durante as fugas espetaculares do traficante carioca na Argentina, acompanhada de perto por Barcellos, que entre uma escapada e outra da polícia, encontrava tempo para entrevistar o criminoso e ajudar na construção da hagiografia padrão de um traficante do Rio de Janeiro. A relação entre Caco Barcellos e Marcinho VP durante a sua fuga lhe rendeu críticas sobre o seu suposto envolvimento com o traficante que era procurado pelo polícia e os limites éticos do jornalismo investigativo. Dessa vez, entretanto, Caco não tinha nenhum bandido de estimação para adular, mas sim, como o fez em “Rota 66”, transformou policiais em assassinos fardados, e os celerados nas vítimas do momento.

Seu programa atual, Profissão Repórter parece existir para manter acesa a chama do ódio contra as polícias militares, sentimento comum a quase todas as redações de jornalismo da mídia tradicional. O último episódio não foi diferente. Caco e seus aprendizes percorreram o litoral paulista e a capital baiana, palco de ações policiais que mataram “estudantes”, “jovens amorosos” e por aí vai. A turma da emissora carioca abusa da afetação a fim de infundir no telespectador o sentimento de injustiça o qual permeia o editorial. O melodrama busca hipnotizar o telespectador, aprisioná-lo na narrativa da violência policial. Os criminosos, aqui na figura de vítimas, têm parentes, os quais inundam a tela com suas lágrimas. Longe de ignorar as dores da perda, mas tudo parece uma encenação barata, tamanha histeria. Tinham sonhos, eram excelentes pais, ardorosos trabalhadores de deixar qualquer calvinista boquiaberto. Locais onde ocorreram as mortes são mostrados, com manchas de sangue e marcas de tiro, o que ajuda na produção das sensações pretendidas. O tom apelativo expõe a urgência da emissora carioca em construir um veredito contra os policiais.

A fim de emular certa imparcialidade, o programa despende alguns minutos para relatar factualmente a morte de um policial e o caso em que outro foi ferido. O mal-estar e desconforto do jornalista ao entrevistar uma associação que atua em defesa de policiais são evidentes. Cumprido o protocolo, o programa volta para o seu melodrama mexicano.

Chega-se ao cúmulo com a entrevista com o Comandante da Polícia Militar paulista, em que Caco destila todo seu cinismo e arrogância, fruto de quem se sente seguro pelos serviços prestados ao establishment durante tanto tempo. Na entrevista o jornalista gaúcho pergunta ao Oficial sobre um episódio em que uma de suas asseclas teria sido surpreendida dentro da favela por um policial, o qual teria lhe apontado um fuzil, “uma arma de guerra”, durante, pasmem, 17 segundos. A prova cabal do nonsense da miséria moral brasileira é o fato de policiais armados causarem estranheza e deverem explicações sobre o que estão fazendo em locais dominados por traficantes armados. A existência de criminosos armados naquela localidade sequer é levada em conta. Nem digo sobre a venda de drogas, já que não é segredo para ninguém o apetite de jornalistas e intelectuais pelas substâncias proibidas, o que torna os traficantes como que parceiros.

Ao assistir a matéria fica evidente o descolamento absurdo da mídia de uma forma geral com os dramas do homem comum. O país ano após ano apresenta números escandalosos de morte violenta. As policias agonizam com seus policiais caçados tanto pelo crime organizado como pelo crime comum. Para ter uma ideia, no Rio de Janeiro a chance de um policial militar morrer ou ser ferido é maior do que a de um militar americano durante a Guerra do Iraque. O país se tornou peça fundamental no tráfico de cocaína, inundando os portos europeus com a droga, o que deveria ser um escândalo nacional. O brasileiro comum vive atomizado com medo da violência urbana que assola o país, mas nada disso parece importar para Caco Barcellos e sua turma, que ensoberbados de sua própria grandeza, continuam introduzindo na consciência nacional todo o cinismo e amoralidade típica do jornalismo militante esquerdista.  


Uma resposta para “Culpados inocentes”.

  1. Excelente

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