-
Cegos no castelo
Cada um de nós deveria perceber que cada indivíduo possui dentro de si a capacidade formidável de construir um sistema explicativo do mundo e, com ele, uma máquina para rejeitar todos os fatos contrário ao sistema.
Jean-François Revel
Uma das vantagens em envelhecer é poder ser testemunha do surgimento de ideias que constituem o debate público. Algumas dessas ideias já nascem eivadas de erros incontornáveis, mentiras e apelos retóricos e, portanto, precisam de um esforço sobrenatural para serem aceitas como verdades, ou melhor, impostas como verdades. A ideia das câmeras corporais é belo exemplo.
Instrumento utilizado há certo tempo por diversas forças policiais americanas, as câmeras corporais chegaram ao Brasil há pouco tempo. Após algumas experiências em algumas polícias estaduais, com modelos e formas de emprego distintos, a Polícia Militar paulista lançou mão do primeiro grande programa nacional de aquisição e utilização de câmeras corporais durante o policiamento. Após estudos que apontavam supostos benefícios do equipamento, o Governo paulista na gestão de João Dória, mesmo em época de alegada escassez orçamentária em virtude das restrições da pandemia da Covid-19, gastou milhões de reais na compra de milhares de câmeras.
A ideia das câmeras caiu como uma luva para toda a intelligentsia. Após o detido trabalho de décadas de toda a esquerda no âmbito da cultura, a imagem do policial violento e corrupto já estava consolidada na consciência nacional, e, portanto, as câmeras vieram a calhar. A polícia precisaria ser controlada a todo e qualquer custo, afinal, ela é a causadora da violência. Numa inversão moral repleta de cinismo e perversidade, os policiais passariam a ter suas ações filmadas ao custo de milhões, enquanto por outro lado, os criminosos, sejam os encarcerados ou os que cumprem outro tipo de pena, continuam sem qualquer controle ou fiscalização.
Mas diante dos gastos elevados para compra dos equipamentos, de questionamentos sobre o porquê de câmeras nos policiais e não tornozeleira eletrônica nos bandidos, além do risco do recrudescimento da violência criminal, os especialistas de sempre cuidaram de apresentar a ideia como a solução última para os problemas de segurança pública no Brasil. Os argumentos beiram à insanidade, de tão estapafúrdios. As câmeras fortaleceriam a produção de provas para condenação dos criminosos presos pela polícia. O policial se sentiria pressionado a seguir os protocolos e procedimentos, a partir do que estaria sujeito a menos riscos. A redução do uso da força e consequente proteção do policial, já que o abordado evitaria resistir à ação policial dado o receio de sua imagem ser gravada e assim ele poderia ser identificado e processado. Num país cuja existência de mandados de prisão em aberto chega à casa das centenas de milhares e que a polícia identifica a autoria de menos de 10% das dezenas de milhares de homicídios que ocorrem anualmente, argumentos como esses são uma ofensa à inteligência.
A morte do Soldado Samuel Wesley Cosmo, da ROTA, mais um herói que a Polícia Militar entrega à sociedade paulista, desmonta totalmente a tese de que as tais câmeras oferecem alguma proteção ao policial. Fosse o episódio uma triste exceção já seria o suficiente para discussão, mas infelizmente não é. As câmeras não mudaram nem um centímetro a realidade experimentada pelos policiais paulistas. Há vários casos de policiais alvejados e agredidos mesmo fazendo uso das câmeras corporais. Mas nada disso demove os especialistas de sua fixação pelo equipamento. Questionar o emprego das câmeras é flertar com a alcunha de fascista, é negar as evidências científicas reveladas pelos intelectuais e suas pesquisas.
O esforço desses seres que se enxergam como se fossem constituídos de um material especial, distinto e habitam os departamentos de sociologia e afins, a partir de onde desenham a sociedade tal qual melhor lhes convém, é tão mais ruidoso quanto maior a mentira que eles precisam transformar em verdade. Ações judiciais com pedidos vagos e genéricos, aparição constante na grande mídia, colóquios acadêmicos aos montes e outra variedade de ações orquestradas pela intelligentsia estão entre os estratagemas de sempre na tentativa de convencer sobre a importância das câmeras. No último dia 30 de março, por exemplo, o Núcleo de Estudo de Violência da Universidade de São Paulo realizou um evento virtual com o tema “O dilema das câmeras corporais: o que pensa a sociedade civil?”. Superando o truque linguístico que infere sociedade civil como se fosse a sociedade real, mas que na verdade trata-se tão somente de sociedade civil no sentido gramscista, ou seja, da organização e produção de vontades coletivamente organizadas. Dito de outro modo, grupos organizados, possuindo os meios de ação para tal, produzindo e transformando o senso comum das pessoas de acordo com os interesses do movimento comunista de concentração de poder em um grupo ou indivíduo.
O evento foi transmitido ao vivo e quando acessei o link tinha a enorme audiência de 11 pessoas. Hoje, quando escrevo esse texto, quase duas semanas após a transmissão, o vídeo do evento apresenta 391 visualizações. Parece-me que as pessoas estão pouco ou nada interessada no que esses portadores de soluções para a segurança pública pautadas por evidências científicas têm a dizer. Mas a baixa audiência não lhes constrange nenhum um pouco. Na verdade, esses especialistas construíram um muro e se encastelaram dentro de suas ideias. Vivem numa espécie de provincianismo intelectual, alimentando entre si seus devaneios sob os títulos que eles conferem a si mesmos. A ideia deles é constranger o poder público com essa gritaria e assim superar a falta de apoio e legitimidade popular que suas pautas apresentam.
Como veem suas intenções como as mais nobres possíveis, quais sejam a proteção dos direitos humanos, a coerência dos argumentos é apenas um mero detalhe, e como tal pode ser superado. Por exemplo, um dos argumentos da intelligentsia contra a implantação de exame criminológico para progressão de regime dos presos, novidade trazida pelo projeto de lei que extinguiu as saídas temporárias, aponta que os custos para instituir tal pratica são elevados e sobrecarregariam ainda mais o orçamento público. Certamente você não encontrará nenhuma vírgula criticando o custo exorbitante da compra e manutenção do sistema de câmeras corporais instituído pela polícia militar paulista. Também não há nenhuma resposta sobre como as câmeras corporais de fato ajudariam a polícia a coibir os 170419 veículos roubados no Estado de São Paulo entre os anos de 2018 e 2021, segundo os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Como diz escreve o pensador americano Thomas Sowell em “Intelectuais e sociedade”
Embora praticamente qualquer pessoa possa nomear uma lista de desenvolvimentos médicos, científicos ou tecnológicos que de alguma forma melhoraram a vida das pessoas das gerações de hoje, em comparação com a vida das gerações do passado, incluindo as pessoas da última geração, seria um desafio mesmo para uma pessoa altamente informada dizer três formas nas quais nossa vida é hoje melhor como resultado das ideias de sociólogos ou de desconstrucionistas.
A consolidação da hegemonia desses intelectuais no ambiente cultural e universitário ocorreu pari passu com a explosão da violência urbana brasileira. Do criminoso ladrão de galinhas às organizações narcoterroristas que dominam parcelas consideráveis das grandes cidades brasileiras e projetam seu poder mundo afora. A reação de uma mente sadia seria buscar formar de fortalecer as polícias e devolver a tranquilidade do Brasil da primeira metade do século passado. Uma mente sadia eu disse…
-
Jornalismo militante!
A primeira coisa que um homem fará por seus ideais é mentir.
J.A. Schumpeter
Em 13 de fevereiro de 1945, no âmbito da Segunda Guerra Mundial, os Aliados iniciaram um ataque aéreo brutal contra a cidade de Dresden, capital do estado da Saxônia, na Alemanha. As bombas aliadas fizeram a “Florença do Elba” arder em chamas durante semanas e causou milhares de mortes. Àquela altura, pressionado pelos Aliados a Oeste e pelo colossal Exercito Vermelho no Leste, mesmo o mais fervoroso dos nazistas já tinha como certo o ocaso do Reich. Mesmo diante do fim certo, a máquina de propaganda nazista construída por Joseph Goebbels cuidou de explorar o bombardeio de Dresden como guerra informacional contra os Aliados.
A história é contada pelo historiador Frederick Taylor no livro “Dresden”. Assim que as autoridades nazistas tomaram conhecimento do ataque devastador liderado pelo Comando de Bombardeiros da Real Força Aérea inglesa, Goebbels deu início à sua guerra de propaganda. As estimativas iniciais davam conta de algo em torno de vinte mil mortes, mas houve um relatório que foi “vazado” para a imprensa que apresentava um zero a mais. Além do número de mortes inflacionado, a propaganda do Reich inundou a imprensa ocidental com fotos de corpos carbonizados, prédios destruídos, além de repetir exaustivamente que Dresden não se tratava de um alvo militar, mas uma cidade notadamente marcada pela forte atividade cultural.
O impacto no Ocidente foi sentido imediatamente e os jornais passaram a questionar a legitimidade do ataque e a pretensa superioridade moral dos Aliados, os quais se apresentavam como libertadores da Europa que vivia sob o julgo do nazismo. O livro mostra que políticos britânicos e americanos questionaram a brutalidade e os resultados da ação. A repercussão foi tamanha que Churchill, durante sua declaração de agradecimento no fim da guerra não mencionou o nome de Sir Arthur Harris, o comandante responsável pelo ataque a Dresden e outras cidades alemãs. Após o fim da guerra, o fato de Dresden ter permanecido sob a influência soviética como parte da República Democrática Alemã contribuiu para o reforço da narrativa criada pelos nazistas. O ataque a Dresden permanece como uma mancha no imaginário ocidental quando se fala em Segunda Guerra Mundial.
A despeito da narrativa criada, Frederick Taylor mostra que naquele contexto de guerra total, Dresden era sim um alvo militar dada a presença de algumas indústrias que contribuíam para o esforço de guerra alemão, além da concentração de tropas que passavam no eixo Leste-Oeste da guerra.
Dresden é um exemplo de como Estados totalitários usam a imprensa como ferramenta de manipulação, de desinformação, como arma de guerra informacional. Nazistas e soviéticos criaram estruturas gigantescas de propaganda e desinformação oficial. Os soviéticos foram além, não se restringiram aos limites de sua fronteira e espalharam sua máquina de desinformação mundo afora, sobretudo no Ocidente. Redações de jornais do mundo inteiro foram ocupados por agentes soviéticos ou meros simpatizantes. Praticamente toda a historiografia que retrata o século XX sofreu alguma influência do Kremlin. A narrativa do Papa Pio XII e sua suposta relação com Hitler é talvez o maior exemplo de narrativa criada nos corredores da KGB que se espraiou pelo Ocidente e há décadas é tida como verdade inequívoca. Mas diante do colapso do Império criado por Lenin e de grande parte de outros estados totalitários congêneres, o sentimento geral era de que a partir de então restaria uma imprensa isenta, imparcial, instrumento de utilidade pública pronta para denunciar conluios e falcatruas de políticos e poderosos. Não poderiam estar mais enganados já que as fundações erigidas pelos bolcheviques e lapidadas pelo italiano Antônio Gramsci nunca estiveram tão fortes, notadamente no Brasil.
“O advogado que defende um assassino instruído, alegando que é mais desenvolvido do que suas vítimas e não pôde deixar de matar a fim de conseguir dinheiro, é, desde já, nosso. Os escolares que matam um mujique para ter uma sensação diferente são nossos. Os jurados que absolvem quaisquer criminosos são nossos. O procurador que treme, lá no tribunal, por não ser liberal o bastante é nosso, nosso. Os administradores, os literatos…oh, os nossos são muitos, muitos mesmo, e nem sabem disso!”. Trecho de Os Demônios, de Fiodor Dostoievski
As raízes da cosmovisão marxista impregnaram tão profundamente a inteligência nacional que se tornou desnecessário a existência de um órgão como o Comintern proferindo ordens, construindo narrativas, estas a serem repercutidas e propagadas pela intelligentsia, políticos e militantes esquerdistas mundo afora. O movimento hoje anda sozinho, como o trecho acima da célebre obra do escritor russo. Não há um comando central, funciona de maneira orgânica, uma sincronia difusa entre academia, mídia e burocracia, sem ser possível distinguir um do outro tamanha a uniformidade de pensamento, chavões, que repetidos exaustivamente se auto afirmam como a expressão pronta e acabada do senso comum. Factoides, desde que úteis à agenda revolucionária são explorados como um dado concreto, irrefutável. Impressões e opiniões se confundem com fatos por meio de uma deliberada confusão na linguagem. Os fatos recentes no litoral paulista constituem um exemplo para análise desse comportamento.
Após os tristes episódios das mortes de policiais, como a do Soldado Cosmo e do Cabo Silveira, o Governo Estadual lançou nova investida contra os narcoterroristas que se instalaram na Baixada Santista ao longo das últimas décadas. Não se trata do criminoso comum, “humanizado” nas palavras do nosso infame atual Presidente da República, mas sim de verdadeiros terroristas criminais. Utilizam armas e técnicas típicas de grupos armados, atuam inclusive com uma rede extensa de propaganda por meio de organizações do terceiro setor e dentro do próprio aparato estatal, vide exemplo de como a Ouvidoria das Polícias e a Defensoria Pública do Estado de São Paulo atuam em defesa desses criminosos.
Após os primeiros confrontos, onde os criminosos felizmente levaram a pior, a imprensa, como de costume e já esperado, começou seu sórdido plano de desinformação. Como se houvesse um Joseph Goebbels coordenando a criação de falsas narrativas, ou um Stalin estimulando campanhas de desarmamento e pacifismo no Ocidente por meio da mídia e da militância comunista, enquanto aumentava seu arsenal nuclear monstruosamente, a imprensa passou atacar as ações policiais.
O roteiro é o mesmo: moradores denunciando ações truculentas da polícia, mortes com sinais de tortura, há relatos até de um criminoso morto em que policiais teriam tirado sua tatuagem com uma faca. Tudo isso sem qualquer prova. A semelhança com outros casos é tão grande que arrisco dizer que nenhum morador sequer foi ouvido, e digo isso por experiência própria. Após me envolver num confronto no qual morreram quatro criminosos, a imprensa inventou uma série de denúncias desse tipo. Uma delas dava conta de que após o confronto, policiais da unidade da qual eu fazia parte foram à favela em busca de testemunhas e celulares que eventualmente teriam gravado a ação, invadiram casas, ameaçaram moradores, entre outras atrocidades. Uma matéria apresentava relatos de vários moradores que presenciaram essas ações. A verdade é que, a fim de evitar exatamente esse tipo de narrativa, o Comandante da Unidade à época proibira os policiais de passarem pelo município onde ficava a favela. Das duas uma: ou os moradores mentiram, o que é possível, ou os jornalistas. Talvez tenha sido um pouco de cada, o que não infirma a parcela de culpa da imprensa. Um jornalismo dito responsável haveria de checar minimamente fontes diversas antes de qualquer coisa. Mas pouco importa se é mentira, desde que a denúncia sirva ao objetivo da intelligentsia, nesse caso, demonizar a polícia.
Denúncias das mais estapafúrdias são apresentadas sem qualquer fundamento. A seguir, instituições da sociedade civil reproduzem essas denúncias e por meio dos seus especialistas condenam a priori a polícia. Remissões a outras ações onde houve morte de criminosos, casos de repercussão mesmo que em outros países, além do trunfo de todo intelectual “filho de 1968”, os crimes da ditadura. Por fim, o aparato estatal dá o tiro de misericórdia e inunda o Poder Judiciário com pedidos absurdos, todos no sentido de controlar a polícia. Toda essa trama é alardeada por quase todos os veículos da imprensa tradicional de maneira repetitiva. Enquanto os criminosos não estiverem seguros para matar policiais, civis e exportarem suas toneladas de cocaína pelo Porto de Santos como fazem mensalmente, esse mecanismo continua funcionando.
Pouco lhes importa o sangue derramado pelos policiais, ou o terror ao qual os civis inocentes são submetidos cotidianamente nessas favelas. Os responsáveis por essa engrenagem estão verdadeiramente comprometidos com seus ideais perversos, sua visão de mundo distorcida e não vão parar. Sabedores que o homem comum não aguenta mais se ver preso enquanto os criminosos gozam de imunidade e status de celebridade, esses arquitetos da destruição gritarão cada vez mais alto, até conseguirem silenciar de uma vez a voz daqueles que clamam por justiça.
-
“Doutor Jivago”, “O diálogo das Carmelitas” e a mentalidade revolucionária.
Iuri Jivago é um jovem médico, figura conhecida dentro da aristocracia russa czarista, com um futuro promissor, costuma frequentar bailes e a alta sociedade de Moscou. Poeta talentoso, procura traduzir em versos toda sua sensibilidade diante dos mistérios da vida. A caridade com que exerce seu mister não se confunde com a virtude concebida pela Graça divina, mas se dá em função da sua compaixão com o ser humano, seu amor pela vida.
Pouco mais de um século antes, dezesseis moças vivem o matrimônio com Cristo. A rotina dentro do Carmelo gira em torno da fé, da vocação representada pelo chamamento à vida ascética, voltada exclusivamente para Deus. Elas não se veem presas, muito pelo contrário, já que ao aceitarem sua vocação, se libertaram das contingências da matéria. A vida do médico russo e das Carmelitas tem em comum a forte paixão pela vida. O primeiro na dimensão afetiva, sentimental, enquanto as Carmelitas, no aspecto religioso. Ambos tiveram seus mundos obliterados pelo ódio da política revolucionária.
O personagem do romance de Boris Pasternak, que ganhou as telas do cinema por meio de David Lean em 1965 vê seu mundo devastado pela Revolução Bolchevique. Para além das questões mais aparentes dentro do novo regime que buscou destruir toda e qualquer forma de tradição do povo russo, o que Jivago nota quando retorna do front da Primeira Guerra e chega numa Rússia vivendo o alvorecer de uma nova sociedade é a destruição do indivíduo.
Em sua guerra contra a aristocracia acusada de corrupta e decadente, os bolcheviques cuidaram de perverter toda a sociedade. Aniquilaram a dimensão do indivíduo ao colocar o espírito coletivista como a razão de existir de sua sociedade. As artes, a família, o pensamento, tudo deveria funcionar em nome do coletivo, na medida exata proposta por burocratas que passavam a desenhar a nova sociedade. A qualquer sinal de resistência, a violência e brutalidade seriam remédios necessários para pavimentar o caminho rumo ao Paraíso criado pelos ideólogos.
Jivago, um médico humanista e poeta, sofre ao ver a degeneração do indivíduo até seu aniquilamento. Busca se refugiar em seus versos, mas padece no mundo cinzento e brutal criado pelos soviéticos. Mas os bolcheviques não foram os primeiros a declarar guerra contra a humanidade. Pouco mais de cem anos antes os jacobinos franceses lançaram a mão do terror e inauguraram o primeiro estado totalitário da modernidade.
Enquanto “Doutor Jivago” ilustra a violência revolucionária sob a ótica de um aristocrata, “O diálogo das Carmelitas” retrata a guerra engendrada pelos Jacobinos contra o clero durante a Revolução Francesa.
O filme, de 1960 e adaptado de um livro de Gertrud Von Le Fort e de uma peça de Georges Bernanos, conta a história real de dezesseis carmelitas francesas que tiveram um fim trágico na infame guilhotina, arma símbolo do terror jacobino.
À medida em que a França experimenta o recrudescimento da violência revolucionária, as Carmelitas reforçam sua fé vivendo no claustro, e mesmo diante dos soldados jacobinos, que passam a acossar o Carmelo com ameaças, as moças, aparentemente frágeis, fazem de seus hábitos e de sua crença armaduras inexpugnáveis.
Acusadas de fanatismo pelo “Comitê de Salvação Pública”, órgão criado por Robespierre para salvar a revolução de dissidentes, tiveram o mesmo destino que milhares de franceses durante no período conhecido como “Reino do Terror”.
A inocência e a fé de mulheres não escaparam da violência política da revolução que varreu a França, executou Rei e Rainha, nobres, padres, e qualquer um fosse nomeado como inimigo do movimento que fundaria uma nova sociedade e um novo homem. Tal qual os bolcheviques, os jacobinos declararam guerra contra todos os elementos da sociedade que julgavam ser obtusos, tirânicos, e por fim, criaram sua própria tirania.
Aqui as duas histórias se cruzam. A história fictícia de Jivago e o drama real das Carmelitas retratam as consequências da mentalidade revolucionária, do avanço da esfera política sobre a dimensão do indivíduo. Ao ignorar as formas tradicionais de associação, ao pretender criar instituições ignorando o passado, usando tão somente a medida de seu intelecto, os franceses do século XVIII e os russos do século XX promoveram a destruição de suas sociedades. Ao acordarem do sonho de um mundo novo, se viram envoltos num mar de sangue, em guerras fratricidas, resultado inequívoco de todos os movimentos que buscaram fundar uma nova realidade a partir das cinzas do passado.
Onde havia beleza na arte contemplada e criada por nobres aristocratas os revolucionários viam afetação, indolência e perversão. Na fé e ascese da vida religiosa, viam idolatria e hipocrisia. Como diz Edmund Burke “…em geral, aqueles que habitualmente trabalham na busca e exibição de falhas não são qualificados para a realização de reformas, porque suas mentes não estão apenas desprovidas de padrões do justo e bom, mas não têm, por hábito, prazer na contemplação de tais coisas. Por odiar tantos os vícios, eles acabam amando o homem muito pouco…”. O ressentimento, o ódio contra a humanidade é traço marcante e comum a esses dois movimentos. A violência como forma de correção do curso da história foi usada na França de Robespierre, e com a tríade Lenin, Trotsky e Stalin. Todos eles desprezam a sociedade, e nutriam uma egolatria tamanha o bastante para não se importarem com os corpos que suas visões de mundo deixavam pelo caminho.
É sintomático que Jivago tenha sofrido tanto com a destruição do mundo em que crescera e aprendera a amar, assim como as Carmelitas, muito embora estas tenham encarado a guilhotina como martírio, o que as aproximou ainda mais de Deus. Na obra de Pasternak Jivago busca a todo tempo refúgio na beleza das palavras, na sua amante ou até mesmo de um pôr do sol, de forma a manter sua vida interior protegida da brutalidade coletivista e demonstra que o indivíduo sempre pode prevalecer. Já as Carmelitas têm na fé sua arma mais forte. A cena em que elas caminham para a guilhotina, com serenidade, sem qualquer sinal de medo ou desespero, é de uma beleza arrebatadora. É a vitória do espírito sobre a carne. Elas demonstraram a todos, inclusive para seus algozes, que existe uma dimensão interior inacessível até mesmo para o mais poderoso dos tiranos, onde o indivíduo é livre inclusive para desfrutar de seu sofrimento, como diz Vitor Frankl.
-
Precisamos proteger os bandidos!
As operações realizadas pelas forças de segurança no litoral paulista escancararam algo que a esquerda já não consegue mais esconder. Sua predileção por criminosos e seu desprezo pelas vítimas! A presença maciça de policiais nas favelas dominadas por narcoterroristas serviu como alívio para a população que permanece sob o jugo de facínoras violentos e cruéis. Mas longe de se importar com a segurança dos moradores das favelas, membros da burocracia estatal e do terceiro setor fizeram do combate à “Operação Escudo” a batalha de suas vidas, e lançaram mão de todo um arsenal de armas jurídicas e informacionais, construído ao longo das últimas décadas, com o objetivo de acabar com a operação e devolver os “territórios” para as mãos dos traficantes do PCC.
Quando o Governador paulista anunciou o nome do Deputado Federal Guilherme Derrite como novo Secretário de Segurança Pública, a militância esquerdista sabia que enfrentaria dificuldades. Estavam acostumados com os socialistas fabianos do PSDB, e as discussões sobre segurança pública se davam nos estreitos limites impostos pela academia e todo seu exército de especialistas, que com paciência, dedicação e alguns milhões de dólares das grandes fundações americanas, povoaram o imaginário das autoridades com suas ideias. Agora teriam que lidar com um Secretário oriundo da Polícia Militar paulista, “aquela herança mal resolvida da ditadura”, e não se tratava de qualquer Oficial, mas um que serviu na ROTA. Nem os criminosos mais violentos tem tanta ojeriza à ROTA como um especialista uspiano “pai de pet” e vegano, ou um Defensor Público criador de bonsai.
Desde o anúncio de Derrite como chefe da pasta de segurança, a militância tem atacado sua reputação sistematicamente, apontando sua nomeação como “retrocesso”, “risco aos direitos humanos”, entre outros chavões típicos da novilíngua esquerdista. Eis que se iniciou a operação escudo, e o que se tratava de uma mera estratégia de destruição de reputação, se transformou no mais novo capítulo da batalha pela justiça social progressista.
A ação da militância, aparentemente confusa, se dá em frentes distintas, seus agentes atuam em redes, que nem sempre se comunicam institucionalmente, mas que seguem uma agenda comum. A ideia é causar o maior impacto possível, não necessariamente na opinião pública, essa repleta de “preconceitos” infundidos pela “ideologia burguesa”, mas sim constranger as autoridades políticas a fim de que não reste alternativa senão atender suas reivindicações.
Inicialmente a mídia passou a denunciar uma série de abusos que teriam sido praticados por policiais durante a operação. Foram apontadas execuções e torturas nos criminosos mortos pela Polícia. Os jornalistas ignoraram os laudos periciais e deram voz às narrativas criadas por “testemunhas”. Desferido esse primeiro golpe, o qual em outros tempos de socialismo fabiano já seria o bastante para cessarem as ações policiais e dar início à transferências e perseguições contra os agentes, dessa vez as mentiras deslavadas criadas pela mídia não ecoaram nos gabinetes do Palácio dos Bandeirantes, e tanto o Secretário de Segurança Pública, como o próprio Governador do Estado não só defenderam a ação, mas como há muito não se via, reagiram e pediram respeito às polícias e seriedade por parte dos jornalistas. O cenário mudara e os esquerdistas precisavam urgentemente proteger os narcoterroristas em “perigo” no litoral paulista.
À disposição da militância histriônica da esquerda existe um imenso aparato institucional, público e privado, construído nas últimas décadas, com o objetivo de promover suas agendas anti-humanas, no trabalho de destruição de toda e qualquer tradição, de todas as instituições criadas pela civilização ocidental ao longo de séculos de história. Criaram a “sociedade civil” e a colocaram no lugar da sociedade real. A voz da primeira, composta de abstrações e utopias emudeceu os sentimentos reais e verdadeiros da segunda. Nesse sentido, os esquerdistas colocaram suas tropas na linha de frente na defesa de traficantes armados contra os cidadãos desprotegidos.
Um dos membros dessa “sociedade civil”, o Conselho Estadual dos Direitos Humanos entrou em cena e ajudou a espalhar as falácias criadas pela mídia. Essa que não desistiu diante do insucesso inicial e continuou noticiando diariamente toda sorte de abusos praticados pelos policiais, o medo que a presença policial causava na população da Baixada Santista e por aí vai. Não demorou e o grupo “Mães de Maio” entrou na batalha e organizou manifestações de rua contra a operação. Os manifestantes agitavam bandeiras com velhos slogans da esquerda: “polícia fascista”, “desmilitarização”, “vidas negras importam”, entre outros. A novilíngua da esquerda é repleta de expressões que pouco ou nada dizem sobre a realidade, mas que causam profunda afetação, sobretudo no branco de classe média alta que nutre certo sentimento de culpa em virtude das injustiças sociais, que embora sejam naturais da condição humana, a propaganda e a escola fizeram com que ele se enxergasse como culpado de tal situação.
Ainda assim o governo paulista não retrocedia e a operação continuava. Alguns poucos criminosos que confrontavam a polícia foram mortos, enquanto que centenas deles eram presos. Uma manifestação foi organizada pelos moradores da Cidade do Guarujá, para pedir a continuidade da operação, o que foi solenemente ignorado pela mídia. A militância esquerdista local se socorreu então do Governo Federal. Este, que inicialmente havia criticado a operação em São Paulo, se sentiu constrangido pelos episódios ocorridos na Bahia e abaixou o tom. Naquele estado, governado por um petista, a polícia também dava uma resposta dura contra os criminosos, e as mortes em confronto aumentavam a cada dia. O auxílio veio através do Conselho Nacional dos Direitos Humanos.
O CNDH enviou uma comissão para avaliar a situação no litoral paulista e logo apontou uma série de “violações aos direitos humanos”, diante do que sugeriu recomendações ao governo paulista, além da suspensão imediata da operação. A preguiça intelectual do Conselho foi tamanha que suas sugestões basicamente eram as mesmas contidas no acordão do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635, “a ADPF das favelas”, uma das maiores vitórias da militância em sua agenda para o caos. Mas a cúpula da segurança pública em São Paulo se apresentava intransigente e disposta a continuar protegendo a população, para revolta da esquerda. Grupos se reuniram na sede paulista da Defensoria Pública da União para discutir estratégias sobre como parar a operação e “proteger os grupos vulneráveis”, os bandidos, dito de outro modo. O auditório onde houve a reunião, uma repartição pública federal, ocorreu com a bandeira do grupo “Mães de Maio” afixada na parede, prova cabal de como certos grupos sequestraram o aparato da burocracia estatal em nome de seus interesses e ideologias.
Foi então que a Defensoria Pública de São Paulo abandonou a guerra de narrativas e adotou uma estratégia mais direta. Com seu desprezo pelas necessidades do homem comum e a partir do conforto da segurança, estabilidade e altos salários, os defensores públicos promoveram uma Ação Civil Pública exigindo a suspensão imediata da Operação Escudo, sob pena de multa, e materializando judicialmente algumas das recomendações do Conselho Nacional de Direitos Humanos. No dia seguinte foi anunciado o fim da operação. É certo que o governo paulista não quisesse ter arriscado uma decisão judicial desfavorável, afinal, dado o ativismo judicial que se espraia entre aqueles que vestem a toga, não seria de se espantar que o pleito da Defensoria fosse acolhido, inclusive extra petita, com algumas inovações iluministas para avançar rumo à sociedade mais justa e fraterna, onde bandidos possam circular sem serem constrangidos por policiais fascistas.
O Defensor Público, como o esquerdista de uma forma geral se comporta, nas palavras de Desembargador Volney Corrêa Leite, como que “possuídos do demônio da soberba, os quais, acima do senso comum e da ordem natural das coisas, impõem à sociedade suas fantasias laxistas e transformam-na em laboratório de sua mais insana experiência: amalgamar justos e injustos, vítimas e criminosos, pacíficos e violentos, de modo que osmótica transfusão de vícios e virtudes extinga as diferenças – um pouco criminosas, as vítimas serão menos indefesas e, um pouco vítimas, os criminosos serão menos agressivos”. [i] Desde a morte do Soldado Reis, a partir do que se iniciaram as operações policiais na Baixada Santista, houve um ataque pérfido contra as polícias, o que demonstra um desprezo cínico e perverso pelos brasileiros que sofrem com a violência urbana.
Com a hegemonia assentada na academia e na mídia, a intelligentsia enxerga seus desvarios como se fossem os grandes dramas nacionais. Mesmo apresentada pela classe falante como uma instituição brutal e corrupta, o homem comum não hesita em se socorrer da polícia quando precisa. A imagem do policial duro, por vezes violento, ecoa de forma positiva entre o cidadão ordeiro de uma forma geral, tanto é verdade, que o “Capitão Nascimento” de “Tropa de Elite”, supostamente construído para firmar uma crítica à brutalidade policial logo se transformou num herói nacional. Mas a esquerda não admite o senso comum, e presa à camisa de força da ideologia, continua sua agenda contra a polícia e a favor do criminoso, mesmo que isso custe o sangue de vidas inocentes.
[i][i] Volney Corrêa Leite e Ricardo Dip, Crime e Castigo – Reflexões Politicamente Incorretas –São Paulo, 2018, p.49
-
A imaginação e o “Nada”
Em “Tempos difíceis”, de Charles Dickens, o professor Thomas Grandgrind expõe sua filosofia de ensino na abertura da obra: “ O que eu quero são fatos. Não ensine nada além de fatos a estes meninos e meninas…Só se pode formar a mente de animais racionais através de fatos…”.
No início do filme “A história sem fim”, baseado no livro homônimo, um clássico da literatura infantil escrito pelo alemão Michael Ende, o protagonista, um garoto por volta de 12 anos chamado Bastian é alertado pelo seu pai sobre a necessidade de “tirar a cabeça das nuvens e manter os pés no chão”. O pai adverte o filho ao saber que o garoto estava escrevendo “cavalos” (Bastian o corrige e diz que na verdade eram unicórnios) no livro escolar de matemática.
Na história criada por Ende, o reino chamado “Fantasia” é ameaçado por uma força sombria conhecida como “Nada”. O “Nada” avança e consome toda forma de existência de “Fantasia”, um mundo repleto de seres mágicos. O avanço do nada põe em risco a Imperatriz do reino, que adoece misteriosamente. A única forma de salvá-la e ao reino e dar a ela um novo nome, o que só pode ser feito por uma criança humana. Tanto a filosofia de ensino baseada somente em fatos do professor Thomas Grandgrind ou o “Nada”, uma força que a tudo consome simbolizam o mesmo problema. A guerra contra a imaginação.
Chesterton em “Ortodoxia” diz que “louco é o homem que perdeu tudo, menos a razão”. O inglês entendia a imaginação como uma força que desconhece as fronteiras da matéria. Entendia os contos de fada e toda sua fantasia como fundamentais para levar a imaginação humana além dos esquemas estreitos do racionalismo moderno, cujo todo saber só fez o homem se aprisionar nos estreitos limites dos “fatos”.
O “Nada” apresentado por Michael Ende não poderia ser uma referência mais direta ao niilismo. Uma humanidade embotada, desiludida de si mesma, que enxerga no assassinato de bebês uma forma de direito, e na maternidade a gênese de toda uma sociedade irremediavelmente opressora e injusta. Dostoievski, um crítico do niilismo e das ideias revolucionárias do seu tempo forjou “Raskolnikov” e o preencheu com o nada e nos deu um exemplo profundo e assustador sobre as consequências de uma alma humana esvaziada de sentido e detida numa espécie de racionalismo cínico
Depois de décadas de educação compulsória baseada em fatos e na razão o “Nada” desfruta de notável conforto. As crianças tiveram suas mentes sequestradas pelos burocratas do aparato educacional, e no lugar da imaginação, a qual poderia levá-las a mundos inexplorados, talharam ressentimento e mal-estar. No lugar de contos de fada que ajudavam a criança a se situar dentro da realidade, através do qual o bem e o mal lhe eram apresentados por meio de uma linguagem simbólica, colocamos fatos e todo o entulho ideológico da moda.
O escritor americano Anthony Esolen diz que, “quando você priva seu filho do alimento das lendas populares, você não só refreia sua imaginação por um momento. Você ajuda a tornar-lhe incompreensíveis vastos campos da arte humana, sem mencionar a vida humana…”. É exatamente isso que estamos fazendo, e com notável êxito há várias décadas. O “Nada” já consumiu Beethoven e Dante e tudo o mais. Todo esplendor arquitetônico das grandes catedrais cedeu lugar às monstros de vidro e concreto com seus ângulos retos. Sem imaginação, todo o tesouro cultural que nos foi legado corre risco de se perder no meio da história, e vivermos dentro do vazio da razão e dos fatos.
-
Culpados inocentes
A desfaçatez de Caco Barcellos e sua patota brindou o país com mais um episódio típico do cinismo esquerdista. O jornalista gaúcho ganhou fama com jornalismo investigativo, com ênfase em ações policiais. Quem já leu algumas das suas principais obras “Abusado” e “Rota 66” sabe o lado escolhido pelo premiado jornalista. Barcellos costuma retratar o policial como um agente frio, brutal, um assassino violento e cruel. Já sobre o criminoso, um tom pudico é devotado a esse pobre coitado, que possui refinado senso de justiça, astúcia e inteligência, espécie de Robin Hood da pós-modernidade. Marcinho VP, o protagonista de “Abusado” é quase um herói injustiçado aos olhos de Barcellos.
O jornalista não esconde a admiração pelo traficante carioca, que foi morto em 2003, mas enquanto vivo era um dos principais nomes do Comando Vermelho. Talvez esse encanto tenha surgido durante as fugas espetaculares do traficante carioca na Argentina, acompanhada de perto por Barcellos, que entre uma escapada e outra da polícia, encontrava tempo para entrevistar o criminoso e ajudar na construção da hagiografia padrão de um traficante do Rio de Janeiro. A relação entre Caco Barcellos e Marcinho VP durante a sua fuga lhe rendeu críticas sobre o seu suposto envolvimento com o traficante que era procurado pelo polícia e os limites éticos do jornalismo investigativo. Dessa vez, entretanto, Caco não tinha nenhum bandido de estimação para adular, mas sim, como o fez em “Rota 66”, transformou policiais em assassinos fardados, e os celerados nas vítimas do momento.
Seu programa atual, Profissão Repórter parece existir para manter acesa a chama do ódio contra as polícias militares, sentimento comum a quase todas as redações de jornalismo da mídia tradicional. O último episódio não foi diferente. Caco e seus aprendizes percorreram o litoral paulista e a capital baiana, palco de ações policiais que mataram “estudantes”, “jovens amorosos” e por aí vai. A turma da emissora carioca abusa da afetação a fim de infundir no telespectador o sentimento de injustiça o qual permeia o editorial. O melodrama busca hipnotizar o telespectador, aprisioná-lo na narrativa da violência policial. Os criminosos, aqui na figura de vítimas, têm parentes, os quais inundam a tela com suas lágrimas. Longe de ignorar as dores da perda, mas tudo parece uma encenação barata, tamanha histeria. Tinham sonhos, eram excelentes pais, ardorosos trabalhadores de deixar qualquer calvinista boquiaberto. Locais onde ocorreram as mortes são mostrados, com manchas de sangue e marcas de tiro, o que ajuda na produção das sensações pretendidas. O tom apelativo expõe a urgência da emissora carioca em construir um veredito contra os policiais.
A fim de emular certa imparcialidade, o programa despende alguns minutos para relatar factualmente a morte de um policial e o caso em que outro foi ferido. O mal-estar e desconforto do jornalista ao entrevistar uma associação que atua em defesa de policiais são evidentes. Cumprido o protocolo, o programa volta para o seu melodrama mexicano.
Chega-se ao cúmulo com a entrevista com o Comandante da Polícia Militar paulista, em que Caco destila todo seu cinismo e arrogância, fruto de quem se sente seguro pelos serviços prestados ao establishment durante tanto tempo. Na entrevista o jornalista gaúcho pergunta ao Oficial sobre um episódio em que uma de suas asseclas teria sido surpreendida dentro da favela por um policial, o qual teria lhe apontado um fuzil, “uma arma de guerra”, durante, pasmem, 17 segundos. A prova cabal do nonsense da miséria moral brasileira é o fato de policiais armados causarem estranheza e deverem explicações sobre o que estão fazendo em locais dominados por traficantes armados. A existência de criminosos armados naquela localidade sequer é levada em conta. Nem digo sobre a venda de drogas, já que não é segredo para ninguém o apetite de jornalistas e intelectuais pelas substâncias proibidas, o que torna os traficantes como que parceiros.
Ao assistir a matéria fica evidente o descolamento absurdo da mídia de uma forma geral com os dramas do homem comum. O país ano após ano apresenta números escandalosos de morte violenta. As policias agonizam com seus policiais caçados tanto pelo crime organizado como pelo crime comum. Para ter uma ideia, no Rio de Janeiro a chance de um policial militar morrer ou ser ferido é maior do que a de um militar americano durante a Guerra do Iraque. O país se tornou peça fundamental no tráfico de cocaína, inundando os portos europeus com a droga, o que deveria ser um escândalo nacional. O brasileiro comum vive atomizado com medo da violência urbana que assola o país, mas nada disso parece importar para Caco Barcellos e sua turma, que ensoberbados de sua própria grandeza, continuam introduzindo na consciência nacional todo o cinismo e amoralidade típica do jornalismo militante esquerdista.
-
Oppenheimer
Ontem assisti à mais recente obra de Christopher Nolan, Oppenheimer! Nolan é uma ilha de criatividade envolto a um oceano de pornografial cultural em que se transformou o cinema de Hollywood. Os doláres gerados por sucessos como a trilogia do “Cavaleiro das Trevas” lhe conferiram autonomia criativa que lhe permite ainda manter-se imune às futilidades da moda no cinema, como diversidade, empoderamento feminino, e outras idiotices. Mas falemos do filme em si.
Oppenheimer trata da história do “pai” da bomba atômica. O cientista J. Robert Oppenheimer foi diretor do Projeto Manhattan, esforço colossal de diversos cientistas e profissionais de várias áreas a fim de construir a arma que daria fim à guerra. Nolan gosta de manipular a linha temporal de seus filmes, abandonando completamente a linearidade narrativa ao sobrepor as histórias, as quais nem sempre tem um desfecho de fácil compreensão. “A origem” é talvez o melhor exemplo, para não citar “Tenet”, talvez um dos filmes mais confusos que eu tenha assistido. Neste não é diferente, e o espectador é apresentado à várias linhas temporais do protagonista, mas que por se tratar de um filme biográfico, o mínimo conhecimento do contexto histórico permite que as coisas sejam encaixadas no devido lugar.
Inicialmente já se desvela o pano de fundo que perdurará ao longo de todo o filme. O conflito político-ideológico entre Estados Unidos e União Soviética, e como a burocracia estatal americana cuidou de perseguir e neutralizar a influência comunista, nesse caso, dentro da comunidade acadêmica, da qual Oppenheimer fazia parte. Também mostra como as recentes descobertas da física quântica abriam um infinito de possibilidades teóricas, e como a classe de cientistas reagia diante disso.
Com a eclosão da guerra e os avanços da máquina nazista, Oppenheimer é chamado para o projeto que mudaria o mundo para sempre. A construção da bomba atômica consumiu o que os Estados Unidos tinham de melhor no campo do conhecimento científico, e o governo americano não poupou doláres nem esforços para vencer os nazistas na corrida pela fissão do átomo.
Entre os avanços de Oppenheimer na condução do projeto Manhattan vemos seu depoimento para uma comissão que buscava apurar sua eventual participação como espião soviético. Há também outra narrativa, que é a participação de Robert Downey Jr. no papel de Lewis Strauss, um dos protagonistas do desenvolvimento do programa nuclear amearicano, e que diante de uma comissão de congressistas precisava explicar suas relações com o protagonista, ainda sob o pano de fundo de seu suposto envolvimento com os soviéticos. O resto todo mundo já sabe, e os efeitos devastadores da Little Boy e Fat Man sobre Hiroshima e Nagasaki falam por si.
Talvez por ser um filme biográfico, e como tal apresentar algum limite à criatividade, esse me pareceu o filme mais enfadonho de Nolan. Há uma certa confusão ao abordar tantos elementos diferentes no mesmo filme. Oppenheimer já é apresentado como um homem adulto, pronto e acabado. Sem mencionar nada sobre seu passado perdemos a oportunidade de especular sobre os motivos de suas escolhas. Ora um cientista clichê, com um mente perturbada e egolatra, ora um pacifista com tendências comunistas, e por fim um arrependimento pouco convicente. Oppenheimer é um personagem raso, inicialmente preocupado com a ascensão do fascismo, o que aliado às preocupações sobre direitos do trabalho teriam aproximado o cientista do movimento comunista. Em outros momentos fala de patriotismo, para em seguida flertar com o pacifismo. Seu arrependimento não parece sincero, tampouco a consciência das consquências de sua obra. Como disse, talvez Oppenheimer tenha sido exatamente assim, um sujeito comum, o que possa ter limitado Nolan e sua imensa criatividade em criar protagonistas profundamente complexos.
A espionagem anticomunista, o alvorecer da física quântica dentro da academia, o esforço de guerra e os dilemas morais sobre a bomba. Nolan traz todos esses elementos para o filme, sem contudo entrelaçá-los de forma satisfatória. Talvez porque cada um desses elementos por si só já fosse o bastante para um único filme, ou quem sabe não tenham funcionado quando colocados na mesma película. A impressão que eu tive é que todos eles foram colocados de maneira superficial. Por exemplo, o macartismo americano e como a estrutura burocrática funcionava para perseguir ameaças comunistas, reais ou imaginárias,foi extensamente abordada no brilhante “J. Edgar”, filme estrelado por Leonardo Dicaprio, e aqui se reduz às comissões que interrogam personagens envolvidos no advento da bomba e no programa nuclear dos Estados Unidos.
O dilema moral sobre a bomba é apressado e superficial, sobretudo quando se tratam de pessoas cujo o intelecto e a compreensão da realidade são excepcionais, como Niels Bohr, Einstein e o próprio Oppenheimer. Sua pretensa culpa por ter criado uma arma de destruição em massa é apresentada através de diálogos burocráticos para uma comissão, que de forma repetitiva lhe pergunta sobre sua aproximação com grupos comunistas no perído anterior a guerra. Nada de especulações profundas sobre ter levado o homem à era do átomo, onde uma eventual guerra mundial tem potencial de levar a humanidade para a pré-história.
Ainda assim, no campo estético Nolan mantém o padrão de sempre, com uma trilha sonora que dá a urgência dos pontos altos da narrativa. O silêncio que precede a explosão no teste da bomba é Nolan em seu melhor momento, manipulando o som e o close na expressão do cientista antes de ser atingido pela onda da explosão. A paisagem do Novo México e as colisões entre átomos “dentro” da cabeça de Oppheimer nos fazem lembrar a capacidade do diretor em manipular o claro e o escuro, como em “Interestelar”
Por fim, o filme foi aquém das minhas expectativas, sobretudo por se tratar de Christopher Nolan. Mas é um filme que vale a pena ser visto, e de alguma forma ele nos alerta para a existência de limites que o homem talvez não devesse cruzar. “O progresso é simplesmente uma ideia moderna, e portanto, falsa”. Nietzsche via a falácia da ideia de progresso infinito que envaideceu o homem, principalmente depois do Iluminismo. Longe de ignorar os avanços da técnica, e os frutos de uma ciência que levou o homem à Lua, mas ainda somos os mesmos de sempre, com uma engenhosidade única, tanto para o bem como para o mal. A era atômica é um desses progressos controversos, e que exige do homem uma responsabilidade sem precedentes.
-
O dia seguinte
Certa vez li um texto escrito por um Capitão da Polícia Militar fluminense que alertava para o problema do “dia seguinte” às operações policiais no Estado do Rio de Janeiro. Vencer a violência, a astúcia e o poder bélico dos narcoterroristas que dominaram os morros cariocas não era o maior dos problemas, pois de acordo com o Oficial, as forças de segurança possuem condições de atuar e vencer o inimigo. Findo os combates armados, uma associação obscura entre mídia, terceiro setor e órgãos da burocracia estatal passam a criar narrativas no sentido de deslegitimar a ação policial e desenlaçam uma espécie de blitzkrieg contras as polícias, realidade contra a qual pouco ou nada as polícias podem fazer. Em São Paulo não é diferente.
Após a morte do Soldado Reis, atingido por disparos de arma de fogo na cidade do Guarujá na última quinta-feira, uma operação policial teve início na região, e até o momento é possível contabilizar alguns confrontos cujos criminosos morreram ao enfrentar a polícia, além de algumas prisões. Cabe aqui apontar que em toda ação policial, especialmente as que resultam em morte, uma quantidade absurda de autoridades acompanham pessoalmente o caso, analisando um sem fim de documentos e relatórios que servirão depois para a apreciação do Ministério Público e Poder Judiciário. Mas isso é um mero detalhe, e detalhe costuma passar despercebido. Com os primeiros resultados da ação policial, não demorou muito para chegar o “dia seguinte” e amanhecermos com a reação da “classe falante”. A reação parece ser orquestrada, tamanha a exatidão das expressões e conclusões que rapidamente são apresentadas como a expressão máxima da verdade.
A mídia começa denunciar relatos de abusos sem apresentar qualquer indício, desprezando completamente uma das bases do jornalismo investigativo.
“Eles relatam que os PMs prometeram assassinar 60 pessoas em comunidades na cidade.O UOL teve acesso a áudios em que moradores afirmam que agentes da Rota entraram encapuzados nas comunidades, inclusive invadindo residências. Segundo os relatos, os policiais também teriam torturado um dos mortos, que estaria com marcas de queimaduras de cigarro no corpo. Moradores acusam ainda os policiais de terem forjado flagrantes.”
O jornalista não traz nenhum elemento que sustente minimamente a denúncia. “Relatos” são apresentados como se fossem a expressão cristalina do ocorrido, sem qualquer critério investigativo. Mas fato é que a verdade não importa e aqui não se fala de jornalismo. A ideia é fomentar uma narrativa a ser explorada pelos outros atores da quadrilha: os especialistas e o terceiro setor.
Não é de hoje que esses idiotas úteis atuam organicamente promovendo suas ideias pervertidas sobre todos os aspectos da sociedade. No caso da segurança pública, organizações como “Instituto Sou da Paz”, “Fórum Brasileiro de Segurança Pública” e o “Núcleo de Estudos de Violência da USP” são os melhores exemplos. A retórica é a mesma de sempre, uma revisitação barata das ideias dos pensadores da Escola de Frankfurt e da Nova Esquerda, notadamente Foucault. Para tal usam uma prosa truncada e afetada. Vociferam que as polícias, sobretudo as militares, atuam para concretizar a necropolítica do Soberano, o qual na era do biopoder não busca somente manter sua autoridade, mas fazê-lo através da morte de alguns, o que asseguraria a existência de todos. Não são instituições que existem para defender inocentes de criminosos celerados, mas constituem o que Althusser chama de “aparato ideológico de Estado”, cujo proposito é a reprodução do poder repressivo, símbolo da ideologia dominante da burguesia, a qual deve ser ferozmente combatida.
Com os dólares de grandes fundações estrangeiras e os impostos do contribuinte nacional, esses especialistas impõem sua visão distorcida da realidade. Criminosos que lucram milhões com a venda de drogas, montam pequenos exércitos com armas de guerra e dominam territórios inteiros de grandes cidades se transformam em uma minoria desajustada, sobre a qual a opressão estatal se faz de maneira mais violenta. Qualquer ação contra esses criminosos que envolva o uso da força, a priori já é condenada. A própria ideia de combater o tráfico de drogas já lhes parece um absurdo, já que a descriminalização do uso de drogas é uma das bandeiras mais importantes dessas organizações. Nada dizem ou têm a dizer sobre milhares de brasileiros que vivem sob o jugo de verdadeiras organizações terroristas. Nenhuma linha é escrita sobre as condições em que o policial morreu e como evitar que isso se repita.
Cientes que suas agendas não encontram eco no homem comum, o qual ainda resiste em alguma medida à imposição da moralidade nova-iorquina que esses intelectuais buscam lhe infundir, a gritaria não busca adesão das massas, mas sim constrangem a classe política, nesse caso o Governador Estadual paulista, além de ressoar dentro do Ministério Público e Poder Judiciário, órgãos já notoriamente contaminados com as ideias de Ferrajoli e Zaffaroni, a versão jurídica do marxismo cultural.
Às polícias me parece que não resta muito a fazer, senão tentar resistir bravamente a esses facínoras, os de arma e os de microfone. Seus líderes devem se vacinar contra os vírus que esses intelectuais inocularam em suas instituições nos últimos vinte anos, alterando profundamente a cognição sobre temais centrais da atividade policial, entre eles o do uso da força. Já passou da hora de desmarcar essa verdadeira associação criminosa entre mídia e intelectuais, e restituir as coisas em seu devido lugar. O policial como herói e defensor de pessoas inocentes, e o criminoso como algoz desprezível, que merece a punição nos termos exatos de sua conduta.
Valter Cardoso da Costa