As pessoas se acostumaram a testemunhar políticos, intelectuais e ativistas de esquerda se manifestarem contra a polícia, sobretudo contra a polícia militar. É como se os incontáveis atendimentos realizados diariamente pelos policiais brasileiros em todo o país, diante de circunstâncias completamente adversas — o que faz da ação mais simples um verdadeiro ato de heroísmo — fossem irrelevantes. A impressão que se tem é que a repulsa que o esquerdismo nutre pela polícia é intrínseca a ele, um elemento constitutivo de sua cosmovisão. O problema da esquerda, na verdade, não é com a polícia, mas sim com a polícia que ela não consegue controlar.
É nesse sentido que a esquerda e todo o seu aparato de hegemonia têm batalhado pela expansão e maior relevância das guardas municipais no cenário da segurança pública nacional. A recente manifestação da Fundação Perseu Abramo, órgão do Partido dos Trabalhadores que reúne intelectuais orgânicos para discutir estratégias de conquista e manutenção do poder, apresenta outra frente do processo que chamo de “bolivarização da segurança pública”. Em uma cartilha de propostas para a área de segurança pública, a Fundação Perseu Abramo sugere a criação de uma Guarda Civil da União como forma de substituir a Força Nacional de Segurança e evitar o emprego das Forças Armadas em atividades de polícia. De um jeito ou de outro — a expansão das guardas municipais já em andamento ou a criação hipotética de uma Guarda Civil nacional — o objetivo é ter homens armados a serviço da agenda revolucionária.
Desde 1966, quando Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Luiz Mário Gazzaneo e Ênio Silveira, todos membros do Partido Comunista Brasileiro, traduziram os “Cadernos do Cárcere”, obra do filósofo italiano Antonio Gramsci, a linha de ação política do fundador do Partido Comunista Italiano marcou a trajetória da esquerda brasileira rumo ao poder. As ações das guerrilhas urbana e rural serviram tão somente para desviar a atenção da verdadeira frente de batalha da esquerda: a cultura e a “longa marcha pelas instituições”. Foi na cultura que a esquerda concentrou majoritariamente seus esforços, lutou pela conquista da hegemonia de toda a sociedade e promoveu uma revolução cultural lenta, gradual e quase imperceptível — portanto, naturalmente mais poderosa, pois, através da transformação do senso comum, dos costumes e das ideias em circulação no debate público, o triunfo foi praticamente total. As pessoas passaram a compartilhar valores e dogmas comunistas sem sequer perceber. Diferentemente do terror bolchevique soviético, das milhões de mortes causadas pelo maoísmo na China e de toda a violência e barbárie de Fidel e Che Guevara em Cuba, no Brasil a esquerda triunfou sem a violência jacobina que lhe é característica.
Com as ideias de Gramsci difundidas à exaustão entre a elite intelectual nacional, associadas aos modismos da Nova Esquerda americana, que introduziram o identitarismo na guerra cultural, a vitória da esquerda parecia total. Com a disputa pelos cargos do poder político limitada entre os vários matizes da esquerda e com a hegemonia quase absoluta nos meios de comunicação, na classe artística e, principalmente, nas universidades, a percepção era de triunfo completo. Gayzismo, ambientalismo, racismo estrutural, aborto — de tempos em tempos uma nova excentricidade era apresentada ao público, inicialmente como descoberta ou revelação e, depois de algum tempo, transformada em direito a ser exigido; contra essas pautas, qualquer manifestação de desagrado é tratada como sintoma evidente de fascismo. A esquerda não previu, entretanto, o poder da internet e o cansaço do homem comum diante de uma agenda política notadamente anti-humana.
O movimento que espontaneamente tomou as ruas em 2013 revelou que o processo de engenharia social ao qual o brasileiro estava submetido há décadas não havia conseguido destruir valores morais profundamente arraigados, herdados da tradição ibérica que, para o bem e para o mal, constitui a base de nossa civilização. De 2013 seguiu-se o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro. Além disso, a internet permitiu que milhões de brasileiros tivessem contato com ideias e pensadores até então proibidos no debate público. Basta uma olhada rápida nas redes sociais para ver pessoas discutindo, de forma séria ou leviana, filosofia grega, medieval, canais com resenhas sobre os grandes clássicos da literatura ocidental — abandonados pela academia em virtude dos dogmas identitários e da ascensão da diversidade como mérito intelectual. O próprio gramscismo, até então restrito a estudiosos e ativistas, hoje pode ser ouvido em conversas de bar. O Foro de São Paulo, organização revolucionária que traz para a América Latina a lógica internacionalista do comunismo e que até ontem era tratado como teoria da conspiração — negado inclusive pelo seu próprio fundador, o atual presidente Lula —, depois de tantas revelações na internet, hoje não pode mais ser ignorado. Os exemplos da ruptura da hegemonia esquerdista são inúmeros e acenderam um sinal de alerta dentro da claque comunista. O que até então era um movimento de conquista de poder lento, gradual e sofisticado, precisaria apelar para a boa e velha coerção comunista: polícia política e prisões! É aqui que a discussão sobre as guardas municipais e a criação de uma eventual Guarda Civil nacional ganha importância.
O modelo de segurança pública brasileiro é notadamente engessado e antiquado. A Constituição Federal prescreve taxativamente quais instituições são responsáveis pelas atividades policiais no país e reserva às polícias militares a responsabilidade pela garantia e preservação da ordem pública, sob o comando dos governos estaduais. Como coube às polícias civil e federal a atividade de investigação, naturalmente as polícias militares estaduais se tornaram as maiores corporações policiais de todo o país, já que o conceito de ordem pública é amplo, o que demanda uma estrutura maior e diversificada. É preciso destacar também que, tradicionalmente, os governadores preferem investir no policiamento ostensivo fardado, cuja visibilidade tende a lhes dar mais dividendos políticos, diferentemente das polícias investigativas, cujo trabalho por vezes é de longo prazo. De todo modo, o fato é que são as polícias militares as forças policiais com maior capilaridade em todo o território nacional. Só a Polícia Militar de São Paulo tem cerca de 80 mil integrantes na ativa — um contingente maior que o da Força Aérea e o da Marinha.
Com um enorme contingente e espalhadas por todo o país, não fosse a natureza militar, as polícias militares estaduais serviriam perfeitamente aos objetivos totalitários dos herdeiros de Marx e Engels. A natureza militar das corporações policiais estaduais, contudo, lhes garante certos atributos, características que funcionam como blindagem diante do assédio da ideologia comunista. Por mais que, em alguns estados, a esquerda tenha conseguido infundir nos comandantes ideias que resultaram na adoção de protocolos que estimulam a redução do uso da força, a utilização de câmeras corporais e a fragilização da segurança jurídica dos agentes — entre outras pautas da agenda esquerdista contra as polícias —, de um modo geral, os integrantes das corporações são céticos em relação a essa agenda. É preciso, portanto, apelar para a expansão das guardas municipais ou para a criação de outras instituições.
A transformação das guardas municipais em forças policiais pode, a médio e longo prazo, colocar literalmente milhares de corporações policiais a serviço da agenda revolucionária. Os motivos são os seguintes: a maioria esmagadora dos municípios brasileiros não tem autonomia orçamentária e depende fundamentalmente da União para manter suas atividades básicas. Nesse sentido, a União pode condicionar o repasse de verbas e o acesso ao Fundo Nacional de Segurança Pública à adoção de certas práticas e à incorporação de certos preceitos na formação e atuação das “polícias municipais”. Levando em conta, sem exagero, que nos últimos 30 anos o governo federal basicamente estimulou políticas como descriminalização das drogas, desencarceramento em massa e redução do uso da força policial, teríamos essa agenda do caos disseminada por milhares de corporações policiais Brasil afora. Além disso, como ocorre no Poder Judiciário, em que o Conselho Nacional de Justiça trava uma batalha pela destruição da tradição jurídica ocidental fundada no Direito Romano e, em seu lugar, propaga teorias como “julgamento com perspectiva de gênero” e “racismo estrutural”, é certo que essas forças policiais municipais serão mobilizadas para prender aqueles que violassem um cardápio identitário cada vez mais abrangente.
Há ainda a questão da sindicalização dessas forças policiais municipais, pois, dada sua natureza civil, é questão de tempo até que dezenas de sindicatos surjam para representar essa nova categoria de profissionais em expansão. Quem se recorda da batalha campal entre policiais civis e militares em frente ao Palácio do Governo paulista em 2008 sabe o problema que representam policiais armados instigados por um sindicalismo militante e revolucionário. As guardas municipais sindicalizadas representarão risco maior, pois, diferentemente das polícias civis e sua natureza investigativa, as guardas realizarão policiamento, naturalmente “militarizarão” suas práticas e procedimentos e poderão se tornar verdadeiros instrumentos de imposição de uma certa agenda política.
Cenário pior ainda seria a criação de uma guarda civil nacional, subordinada diretamente à União. Na transformação das guardas municipais em polícias e em sua expansão, o processo de instrumentalização dessas instituições seria de médio e longo prazo, de forma indireta e através de métodos sofisticados de conquista de hegemonia. Já no caso de uma força policial própria, não há dúvida de que seria uma espécie de guarda pretoriana a perseguir brasileiros por todo o país. A Polícia Federal já atua nesse sentido; contudo, sua estrutura e natureza restringem seu alcance em todo o território nacional — alcance que poderia ser atingido por uma guarda civil fortemente equipada, treinada e direcionada para perseguir e prender os recalcitrantes da nova ordem global. Já posso imaginar o nome dessa nova Guarda Civil Nacional – “POLÍCIA DA DEMOCRACIA”.
Não basta a escola doutrinar nossas crianças desde a mais tenra idade, nossos artistas reproduzirem uma visão de mundo enviesada, nossos promotores oferecerem denúncias contra discursos de ódio e juízes expedirem mandados de prisão contra machistas e “antidemocráticos”. Caso todo esse processo ainda não seja suficiente, o movimento comunista precisará de uma força policial armada — alguém para prender famílias que vão à praia durante uma “pandemia”, prender quem se reúne numa praça para falar mal de algum poderoso corrupto ou algo do tipo. O Brasil caminha a passos largos para um estado ditatorial completo. Com a alma e a consciência já capturadas pela ideologia comunista, presas no claustro do marxismo e seus revisionismos, os brasileiros poderão agora perder seus últimos centímetros de liberdade, com forças policiais que funcionarão como verdadeiras Gestapos, batendo à porta e prendendo aqueles que ameacem a revolução.
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