América, a terra dos refugiados soviéticos e agora, brasileiros

Em 1978, Ion Pacepa era um homem poderoso dentro do aparato de inteligência da Romênia. O país era um dos satélites de Moscou e seu serviço de inteligência, do qual a Securitate era um dos principais órgãos, funcionava como um apêndice da KGB soviética. Pacepa era um general romeno de duas estrelas e exercia um dos cargos mais importantes dentro da burocracia do ditador Nicolae Ceaușescu. O general, de acordo com ele próprio e usando a realidade americana como exemplo, era uma mistura de Chefe de Gabinete presidencial, Conselheiro de Defesa, Diretor da CIA e chefe do Departamento de Segurança Nacional.

Contudo, todo o poder e o status que seu cargo lhe conferia não resistiram ao sopro de humanidade que tocou a alma do general. Sua fé no bloco soviético, que já vinha abalada por conta de suas viagens aos Estados Unidos e dos ventos de liberdade que ali preencheram seus pulmões, sofreu o golpe fatal quando recebeu ordens diretas de Ceaușescu para assassinar o jornalista Noel Bernard, diretor do programa romeno da Rádio Europa Livre, cujas transmissões se tornaram uma pedra no sapato da ditadura romena.

Com a consciência já atormentada pelos esforços realizados junto à inteligência soviética, Pacepa havia jurado para si mesmo que não cruzaria o que considerava a linha limite. Não queria somar assassinatos à sua extensa lista de serviços sujos em nome da revolução comunista. Naquele mesmo ano, enquanto cumpria uma missão oficial na Alemanha, Pacepa dirigiu-se à Embaixada Americana em Bonn e disse as palavras que mudariam sua vida para sempre:

— Sou um general de inteligência do bloco soviético, de duas estrelas, e quero desertar para os Estados Unidos.

Pacepa passou a ser alvo de uma ordem de assassinato por parte da ditadura romena, que ofereceu o prêmio de dois milhões de dólares por sua cabeça, além de tê-lo condenado à revelia à morte em dois processos por traição. Sua luta seguinte foi para que sua filha conseguisse sair de trás da Cortina de Ferro, o que só foi possível em 1989.

A história de Pacepa é contada no livro “Desinformação”, escrito por ele próprio e pelo professor Ronald Rychlak. Outro importante membro da inteligência do bloco comunista a desertar foi Walter Krivitsky, “o primeiro grande espião militar soviético a desertar para o Ocidente”.

Krivitsky desertou pouco antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial. Sua história está no livro de memórias “No serviço secreto de Stalin”, em que descreve o aparato de inteligência, perseguição e assassinato construído por Stalin durante os anos 1930. Krivitsky realiza uma fuga digna de filmes de espionagem para a França e depois viaja para os Estados Unidos, onde viveu atormentado pelo receio de ser assassinado pela polícia secreta soviética (NKVD).

As histórias de Pacepa e Krivitsky se somam a tantas outras em que espíritos ávidos por liberdade e verdade largaram a escuridão que havia dentro das fronteiras do bloco comunista e rumaram para os Estados Unidos. Refúgio seguro de desertores de toda sorte, do antigo bloco soviético ao atual bloco russo-chinês e seus satélites (Venezuela, Cuba, Irã, Coreia do Norte), a nação criada por Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, James Madison e outros “pais fundadores” agora recebe um novo tipo de refugiado, um novo tipo de “desertor”: os brasileiros!

A defesa renhida e inclemente da “democracia”, do “Estado de Direito” e das “instituições brasileiras” transformou a rota São Paulo–Miami em algo além do caminho daqueles que buscam a praia de South Beach ou os parques de Orlando para diversão. A Flórida se tornou um santuário, um espaço onde a longa mão inquisitorial da Suprema Corte brasileira e de sua polícia política — digo, Federal — ainda não consegue alcançar.

Allan dos Santos, Rodrigo Constantino, Paulo Figueiredo e, agora, Alexandre Ramagem. A lista tende a crescer ainda mais!

Diferentemente dos desertores soviéticos — que estavam a serviço do governo, integrando a máquina estatal —, a trajetória dos brasileiros (à exceção do deputado federal) se encontra com a de Pacepa e Krivitsky na medida em que todos eles viram na América um lugar onde, de fato, poderiam repousar em liberdade. Outro ponto em comum em suas jornadas é o fato de que, sobre todos eles, o peso da tirania se fez notar. Pacepa, com condenações à revelia por traição; Krivitsky, pelas perseguições dos agentes da polícia secreta soviética na França e depois em solo americano; e os brasileiros, alvos de inquéritos que mais parecem uma cópia vulgar dos Processos de Moscou, durante o Grande Expurgo stalinista nos anos 1930, quando tribunais soviéticos, conduzidos pelo infame Andrey Vyshinsky, carrasco de Stalin travestido de juiz, usaram o direito como forma de silenciar toda dissidência política e assegurar o poder absoluto do “Homem de Aço”.

Os ministros da Suprema Corte, assim como Stalin, tornaram-se intolerantes a qualquer crítica. Com o chamado constitucionalismo dirigente — nome oficial daquilo que é, na prática, uma verdadeira revolução cultural de natureza gramsciana —, os ministros assumiram a posição típica dos líderes do Politburo soviético. Não foram eleitos, não podem ser criticados, mas decidem todo e qualquer aspecto da vida política e social do país.

Fortalecidos pelo suporte institucional e ideológico conferido pelo Partido dos Trabalhadores e por sua rede internacional de alianças de esquerda, “os guardiões da Constituição” se tornaram pretores do progressismo e de sua agenda revolucionária. Ambientalismo, identitarismo e outros delírios pós-marxistas transformaram-se em “avanços” que precisavam ser impostos a todo custo sobre a sociedade, e aqueles que se mostrassem recalcitrantes passaram a ser sistematicamente perseguidos.

A empresa é de enormes proporções, pois busca reparar as fissuras que a internet causou no “Muro de Berlim” simbólico: as fronteiras intelectuais cuidadosamente construídas nos últimos 60 anos no Brasil. ENEM, Base Nacional Comum Curricular e Lei de Diretrizes e Bases são apenas alguns dos elementos de uma rede complexa e de alcance gigantesco, que serviu para limitar o horizonte de consciência dentro dos dogmas esquerdistas: a tão sonhada hegemonia descrita por Antonio Gramsci. Mas, apesar do enorme trabalho, o homem comum resistiu e demonstrou sua revolta na eleição de 2018.

O que era um processo lento, gradual, silencioso — para que não chamasse atenção —, a partir de 2018 passou a exigir instrumentos mais duros. Recorreu-se, portanto, à boa e velha liturgia soviética de perseguição. “Defesa da democracia”, “discurso de ódio”, “antifascismo” são os mesmos slogans utilizados pela propaganda soviética quando a ditadura bolchevique resolvia prender ou executar um rival.

A realidade brasileira, a cada dia que passa, ganha contornos soviéticos. A grande mídia, como o Pravda, jornal oficial dos bolcheviques, tem reforçado a “indignidade” de Allan dos Santos, Rodrigo Constantino, Paulo Figueiredo e de todos aqueles que fugiram da perseguição judicial em curso no país. Descritos como mentes criminosas das mais abjetas, ameaças à soberania nacional, à sociedade e ao Estado brasileiro, sofrem o mesmo assassinato de reputação que recaiu sobre Pacepa e Krivitsky. Além disso, são vitimados por técnicas judiciais sofisticadas que bloqueiam contas bancárias e deixam esses brasileiros à própria sorte, por vezes distantes até mesmo do contato familiar.

É preciso destacar, contudo, que o tempo há de demonstrar com quem está a verdade, quem são os verdadeiros criminosos nessa história. A história de Pacepa e Krivitsky, apesar de todo o esforço da intelligentsia, ecoa — assim como a de Aleksandr Soljenítsin — como exemplo de humanidade. São histórias do triunfo da liberdade sobre a tirania, da verdade sobre a mentira.

Os que hoje se deleitam de suas vitórias, que do interior de seus luxuosos gabinetes despacham ordens para assessores e policiais ávidos por alimentar o fogo da tirania e perseguir brasileiros mundo afora, amanhã não passarão de um registro em uma placa numa parede e seus nomes serão julgados no tribunal da história, onde certamente serão condenados.


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