Dias atrás o decano da nossa Suprema Corte, o ministro Gilmar Mendes disse que “nós todos somos admiradores do regime chinês, do Xi Jinping”. A fala se deu durante o julgamento da constitucionalidade do artigo 19 da lei conhecida como “marco civil da internet”. Caso esse tipo de admiração fosse externado por um professor de ensino médio ou universitário simpático a ideologias revolucionárias, o tipo que ministra aulas de história vestindo uma camisa do Che Guevara, não causaria maior surpresa. A instrumentalização ideológica da educação, infelizmente, é um fenômeno recorrente em diversos espaços escolares e universitários. Contudo, quando essa admiração parte de uma figura da mais alta corte do país, com relevante trajetória acadêmica e notório conhecimento em direito constitucional, especialmente o alemão, não se trata apenas de opinião individual: expõe a degradação moral e intelectual de setores da elite brasileira, que parecem desconsiderar as implicações éticas de louvar um regime autoritário com histórico de violência sistêmica.
Para dimensionar o absurdo moral que representa a admiração por um regime desse tipo, proponho um exercício hipotético: imaginemos que o inverno russo de 1942 não tivesse prejudicado o avanço nazista, e que as tropas de Hitler tivessem conquistado Moscou. Suponhamos que, sem o apoio logístico e financeiro dos Estados Unidos, o Exército Vermelho colapsasse, e que uma fração trotskista no Partido Bolchevique firmasse um acordo com Berlim, encerrando a frente oriental da guerra. Imaginemos ainda que os alemães tivessem derrotado os britânicos em Dunquerque, forçando um acordo de paz com o Reino Unido. Com o continente europeu sob domínio nazista, Hitler concluiria a “solução final”, exterminando silenciosamente milhões de judeus, e, décadas depois, substituído por tecnocratas, o regime manteria sua estrutura autoritária, mas com menos brutalidade visível. Para quem tem dificuldade de imaginar um cenário como esse, sugiro o filme “A nação do medo”, produzido pela HBO, de 1994. A obra retrata um cenário em que os alemães vencem a Segunda Guerra e fazem oposição aos Estados Unidos como grande superpotência. Na trama uma jornalista busca informações sobre o holocausto, mantido em segredo pelos nazistas.
Seria aceitável, mesmo num mundo onde essa Alemanha nazista tivesse se tornado uma superpotência econômica, que um ministro da mais alta corte brasileira declarasse sua admiração pelo regime?
A China governada por Xi Jinping é herdeira direta do projeto político instaurado por Mao Tsé-Tung, responsável, segundo O Livro Negro do Comunismo, por cerca de 45 milhões de mortes apenas entre 1950 e 1976. As tragédias do “Grande Salto Adiante” e da “Revolução Cultural” não foram desastres fortuitos, mas consequências diretas de políticas deliberadas de controle totalitário, repressão e destruição da vida social tradicional chinesa. O livro, organizado por Stéphane Courtois, também detalha o funcionamento do sistema de campos de trabalho forçado, o Laogai, equivalente chinês ao gulag soviético, onde milhões de pessoas foram encarceradas por motivos políticos, religiosos ou ideológicos.
A fala de Gilmar Mendes não está isolada. Intelectuais de renome historicamente se permitiram relativizar os crimes do comunismo em nome de um suposto ideal maior. O filósofo francês Jean-Paul Sartre, por exemplo, recusou-se a denunciar os expurgos de Stalin. O historiador britânico Eric Hobsbawm, mesmo reconhecendo os horrores do stalinismo, continuou defendendo a causa comunista como justa em sua essência. Trata-se de um padrão recorrente: uma fé messiânica na utopia marxista que cega até mesmo mentes brilhantes diante da brutalidade histórica.
Esse padrão se mantém até hoje, alimentado por um esforço global e prolongado de reconfiguração da memória histórica e propaganda comunista. Enquanto símbolos do nazismo são (com razão) proscritos em todo o Ocidente, manifestações comunistas ainda circulam com naturalidade em universidades, partidos políticos e órgãos de Estado. Não se trata aqui de relativizar o nazismo, mas de exigir o mesmo juízo moral diante dos horrores do comunismo, proporcionalmente muito maiores.
A admiração pelo regime chinês é, portanto, um sintoma de algo mais profundo: a falência moral de uma elite que, incapaz de exercer julgamento ético coerente, alterna entre a defesa da democracia e o aplauso a ditaduras. Uma elite que se diz guardiã dos direitos humanos, mas reverencia um regime que os viola sistematicamente. Uma elite que já abandonou a honestidade intelectual, e agora parece também ter abandonado a consciência moral.
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