O 8 de janeiro e a manipulação da consciência nacional

Hoje, oito de janeiro de 2025, faz dois anos que um bando de arruaceiros desvairados invadiu prédios públicos na capital federal e numa espécie de catarse coletiva, vandalizou e destruiu tudo o que viu pela frente. A Praça dos Três Poderes e seus ícones da arquitetura modernista de Lúcio Costa e Niemeyer já haviam testemunhado incontáveis episódios de violência e baderna. A novidade trazida pelo 8 de janeiro de 2023 é que no lugar de bandeiras vermelhas do MST, MTST, das centrais sindicais e toda rede da militância comunista, havia bandeiras nacionais e camisetas da seleção brasileira de futebol. Em vez de militantes profissionais, centenas de desempregados, profissionais liberais aposentados e insatisfeitos de toda sorte. Mas se a quebradeira perpetrada pelo exército de organizações esquerdistas sempre foi vista como um simples exercício do direito à manifestação, o 8 de janeiro não gozou da mesma simpatia e ganhou ares de um putsch nazifascista. Como uma verdadeira operação psicológica de grandes proporções, mídia, intelectuais, artistas e membros do estamento burocrático, assim como fizeram com período do regime militar, trabalham exaustivamente para transformar um vandalismo generalizado de grandes proporções em uma tentativa de golpe de estado realizada por extremistas violentos.

No período entre 64 e 85, intelectuais e agentes revolucionários comunistas foram perseguidos, presos e torturados pelos militares. O brasileiro comum, acostumado ao autoritarismo do período republicano, vivia sua vida indiferente aos conflitos políticos e contingências impostas pela guerra fria, enquanto a esquerda sofria com a repressão do regime. Esse sofrimento marcou profundamente a consciência de artistas e intelectuais. Os primeiros usaram a cultura para dar vazão a esse sentimento, já os intelectuais passaram a trabalhar para compreender o que estava acontecendo e encontrar alternativas para a tomada do poder. É nesse contexto, por exemplo, que surgem diversos grupos de estudo da teoria marxista, entre eles o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP, cujo um dos principais expoentes foi Fernando Henrique Cardoso, renomado intelectual marxista que veio a se tornar Presidente da República. Nesses grupos discutiam -se as obras e teorias dos principais nomes do marxismo ortodoxo, dos teóricos da Escola de Frankfurt, dos desconstrucionistas franceses, e principalmente, do italiano Antonio Gramsci. Intelectuais e artistas buscaram, cada um à sua maneira, formas de manterem viva a chama da revolução e sobreviver em meio a perseguição dos militares.

Restaurada alguma normalidade institucional a partir de 1985, já dominando todos os meios de comunicação e cultura, esses mesmos artistas e intelectuais trataram de infundir na consciência nacional seus dramas causados pelo enfrentamento à ditadura. De um mero estado de exceção, cujos atos abomináveis de violência se dirigiram a um seleto grupo, grupo esse que também lançou mão do terrorismo e da guerrilha, o regime militar transformou-se em uma ditadura brutal. Os poucos mais de quatrocentos mortos e desaparecidos nos vinte e um anos de regime militar atestam que de brutal esse período nada teve. Comparando com os milhares de mortos de Pinochet no Chile, ou mesmo com a adorada ditadura castrista de Cuba, os ditadores brasileiros, como quase tudo nesse país, foram preguiçosos ou ineficientes, talvez um pouco de cada. Mas ignorando qualquer senso de proporções e lançando mão de desinformação do tipo da praticada pela KGB soviética, a esquerda transformou um débil regime autoritário numa espécie de Alemanha Nazista.

De tempo em tempo é lançado um filme sobre o período. “O que é isso companheiro”, “Zuzu Angel”, “Mariguella”, entre outros. Todos apresentam basicamente a mesma perspectiva, que é a do sofrimento, o drama do jovem idealista perseguido pela ditadura. Os crimes praticados por esses idealistas são colocados em segundo plano, quase ignorados, pois como disse certa vez o comunista Bertolt Bretch: “…Quem luta pelo comunismo tem de todas as virtudes apenas uma: a de lutar pelo comunismo.” Lançado o filme, série ou peça teatral, o tema da ditadura militar volta ao centro das atenções. Manifestações públicas de artistas, editorais de jornais, artigos da crítica especializada, assim como em um organismo vivo, a reação é instantânea e uníssona. A ideia é manter vivo no imaginário social o drama experimentado pelos guerrilheiros e intelectuais no período militar. Como se não houvesse nenhum fato interessante sobre o qual escrever, produzir ou comentar, o país vive preso dentro desse enredo. Pior para as gerações mais novas, que como em um condicionamento pavloviano, são submetidas exaustivamente a esses símbolos, sobretudo dentro das escolas, de forma a ter sedimentado em suas consciências, como reflexos, o que foi o regime militar na visão da esquerda. É exatamente esse processo que foi iniciado tão logo anoiteceu naquele 8 de janeiro de 2023.

Havia a necessidade de expurgar uma série de posições políticas que na década passada romperam com a bolha construída pela hegemonia esquerdista nos últimos sessenta anos e o 8 de janeiro veio a calhar. Desde então tem sido utilizado como símbolo em torno do qual toda a elite esquerdista trabalha para demonizar a dissidência. Como a esquerda tomou para si “toda a bagagem da virtude humana” como escreveu o pensador inglês Sir Roger Scruton, era preciso agir rápido para silenciar o inimigo. Se os militares no poder em 1964 causaram desalento entre os revolucionários, o surgimento de uma fagulha conservadora no debate público nacional escandalizou a esquerda dos dias de hoje. Nos últimos anos, pela primeira vez em muito tempo a esquerda brasileira viu sua hegemonia ameaçada.

Os poucos artistas esquerdistas que restam com capacidade intelectual e sensibilidade artística trabalham para decantar os movimentos políticos dos últimos anos em geral, e o 8 de janeiro, em especial, para então criarem suas ficções e todo um conjunto de símbolos para impressionar e povoar o imaginário nacional. Mas a criatividade do artista tem seu próprio tempo e a esquerda tem pressa. Enquanto a onda de filmes e séries não vem, a mídia, intelectuais e políticos trabalham para transformar a data num evento a ficar na história nacional, como um novo grito do Ipiranga. Mais uma vez lançam mão de uma série de reportagens, artigos, uma avalanche de análises, comentários, sob as mais diversas perspectivas, com abordagens diferentes, tudo no sentido de reforçar a narrativa criada.

Levando em conta que a ladainha sobre o regime militar se repete anos após ano, o futuro reserva muito sobre o 8 de janeiro, evidentemente que sempre na perspectiva esquerdista. A data será transformada de tal forma que seus contemporâneos não mais a reconhecerão e passarão a duvidar da própria memória. Os que ainda hão de nascer serão massacrados com histórias de como onze homens de toga prenderam generais, moradores de rua, esquizofrênicos e outros terroristas perigosos, e assim salvaram a democracia brasileira!


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