Cronocentrismo

Em “A formação das almas – O imaginário da república no Brasil”, o historiador José Murilo de Carvalho descreve o processo de substituição dos símbolos nacionais levado a efeito pelos arquitetos da República. No fim do século XIX a noção de Brasil enquanto país livre e soberano ainda era recente e sem forma. A imagem que o país tinha de si mesmo era notadamente influenciada pela herança da Cristandade europeia, infundida aqui pela colonização portuguesa. Muito embora o caldeirão cultural já fosse evidente por aqui, não havia dúvidas de que éramos tributários direto da tradição imperial e católica do mundo ibérico.

Com o alvorecer da República a partir de 1889, seus criadores, fortemente influenciados pelo Iluminismo francês e entusiastas do jacobinismo revolucionário, como conta José Murilo de Carvalho, entenderam haver a necessidade de um verdadeiro expurgo na imaginação social da jovem nação. Procedeu-se então a criação de uma série de novos símbolos associados com o espírito da república e seus valores de igualdade, ordem, laicidade, enquanto se destruía os monárquicos, como a ideia de nobreza, e principalmente, afastava-se a influência da Igreja católica nos negócios de estado e na vida pública de uma forma geral.

Quando o país adentra no século XX, o século das ideologias de massa, ele o faz sem saber quem é, de onde veio e para onde iria. O país conhece o comunismo e o nazifascismo desarmado de qualquer tradição que servisse como anteparo. O resultado é que na década de 30 o país inteiro é conduzido por um ditador mais que simpatizante com o fascismo de Mussolini. Enquanto Vargas perseguia dissidentes e construía um Estado autoritário influenciado pelo fascismo italiano, o comunismo ganhava adeptos na elite intelectual. Desde então o país se desencontrou de sua história, de seu passado, e cada geração tomou para si o direito e o dever de construir um novo país, um novo passado e um novo futuro.

Quando os republicanos declararam guerra ao nosso passado imperial, eles nos tiraram a única defesa possível ante o sectarismo das ideologias do século XX, em especial o comunismo e sua lógica de destruição fratricida através da luta de classes. O resultado foi a morte da consciência nacional. O brasileiro mal encontra símbolos os quais ele pode compartilhar e que repousam profundamente no imaginário social do grupo. Símbolos que transcendem as contingências do tempo e espaço e se materializam na noção mesma de país. Aqui vivemos sob o signo da destruição constante do passado, como que num jacobinismo perpétuo. Os que vivem no presente guilhotinam o passado e tomam para si o papel de recomeçar o país do zero.

Assim matamos nossos heróis, nossas lendas, nossas tragédias e vitórias. O brasileiro vive o que o Professor Olavo de Carvalho chama de “cronocentrismo”. Preso perpetuamente no presente, em seu tempo, o país vive como que solto, sem amarras na história. Mesmo nossa elite intelectual da atualidade adota essa postura embotada e se prende a discussões cuja característica fundamental é a de serem atuais. Não há nada sobre o nosso passado, nenhuma noção de continuidade.

Um bom exemplo é a história de Alberto Mendes Júnior, herói brasileiro e paulista morto pela guerrilha comunista na região do Vale do Ribeira em 1970. O jovem Oficial da então Força Pública, predecessora da Polícia Militar paulista, foi assassinado pelo grupo revolucionário de orientação marxista-leninista liderado por Carlos Lamarca, Oficial deserto do Exército Brasileiro. Um episódio que deveria ser repisado ano após ano, porquanto fundamental para entendermos nosso passado, pois por um lado, sim, somos uma nação de heróis que morrem com nobreza cumprindo seu dever, e por outro, nos remete ao papel fundamental que o país apresentou no contexto da guerra fria, e como a sovietização dos grupos guerrilheiros foi uma realidade, não uma teoria da conspiração.

Mas hoje, pouco mais de duas gerações após a morte do jovem Oficial, falar em guerrilha comunista, mártires e heróis desse período é flertar com a pecha de esquizofrênico, “terraplanista”. Por óbvio quando se fala no período do regime militar deve-se levar em conta o sequestro da memória nacional por meia dúzia de intelectuais, os quais transformaram seus dramas e suas histórias particulares no espírito nacional do período, mas tal comportamento não é exclusivo em relação ao período mais recente da nossa história

Embora milhares de brasileiros frequentem diariamente unidades de Santa Casa pelo país inteiro, é como se o tratamento de saúde tivesse surgido a partir do advento do SUS. Se interrogarmos um pedagogo daqueles cheio de títulos acadêmicos e lhe perguntarmos sobre a origem da educação brasileira é bem possível que ele não vá além de Anísio Teixeira e ignore por completo toda a tradição da educação jesuíta. Não há um traço da nossa história que não tenha sido transformado ou em alguns casos, obliterados.

Os intelectuais esquerdistas não criaram esse espírito destrutivo, tão somente se aproveitaram de uma característica que já estava insculpida na consciência nacional desde que os republicanos promoveram o expurgo do passado ibérico e cuidaram de apagar todos os traços de nossa colonização portuguesa. A partir de então o país vive de geração em geração, cada uma delas embebida com a arrogância “daqueles que andam por aí”, prontos para construir o mundo a partir de seu próprio depósito de razão.


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