Cegos no castelo

Cada um de nós deveria perceber que cada indivíduo possui dentro de si a capacidade formidável de construir um sistema explicativo do mundo e, com ele, uma máquina para rejeitar todos os fatos contrário ao sistema.

Jean-François Revel

Uma das vantagens em envelhecer é poder ser testemunha do surgimento de ideias que constituem o debate público. Algumas dessas ideias já nascem eivadas de erros incontornáveis, mentiras e apelos retóricos e, portanto, precisam de um esforço sobrenatural para serem aceitas como verdades, ou melhor, impostas como verdades. A ideia das câmeras corporais é belo exemplo.

Instrumento utilizado há certo tempo por diversas forças policiais americanas, as câmeras corporais chegaram ao Brasil há pouco tempo. Após algumas experiências em algumas polícias estaduais, com modelos e formas de emprego distintos, a Polícia Militar paulista lançou mão do primeiro grande programa nacional de aquisição e utilização de câmeras corporais durante o policiamento. Após estudos que apontavam supostos benefícios do equipamento, o Governo paulista na gestão de João Dória, mesmo em época de alegada escassez orçamentária em virtude das restrições da pandemia da Covid-19, gastou milhões de reais na compra de milhares de câmeras.

A ideia das câmeras caiu como uma luva para toda a intelligentsia. Após o detido trabalho de décadas de toda a esquerda no âmbito da cultura, a imagem do policial violento e corrupto já estava consolidada na consciência nacional, e, portanto, as câmeras vieram a calhar. A polícia precisaria ser controlada a todo e qualquer custo, afinal, ela é a causadora da violência.  Numa inversão moral repleta de cinismo e perversidade, os policiais passariam a ter suas ações filmadas ao custo de milhões, enquanto por outro lado, os criminosos, sejam os encarcerados ou os que cumprem outro tipo de pena, continuam sem qualquer controle ou fiscalização.

Mas diante dos gastos elevados para compra dos equipamentos, de questionamentos sobre o porquê de câmeras nos policiais e não tornozeleira eletrônica nos bandidos, além do risco do recrudescimento da violência criminal, os especialistas de sempre cuidaram de apresentar a ideia como a solução última para os problemas de segurança pública no Brasil. Os argumentos beiram à insanidade, de tão estapafúrdios. As câmeras fortaleceriam a produção de provas para condenação dos criminosos presos pela polícia. O policial se sentiria pressionado a seguir os protocolos e procedimentos, a partir do que estaria sujeito a menos riscos. A redução do uso da força e consequente proteção do policial, já que o abordado evitaria resistir à ação policial dado o receio de sua imagem ser gravada e assim ele poderia ser identificado e processado. Num país cuja existência de mandados de prisão em aberto chega à casa das centenas de milhares e que a polícia identifica a autoria de menos de 10% das dezenas de milhares de homicídios que ocorrem anualmente, argumentos como esses são uma ofensa à inteligência.

A morte do Soldado Samuel Wesley Cosmo, da ROTA, mais um herói que a Polícia Militar entrega à sociedade paulista, desmonta totalmente a tese de que as tais câmeras oferecem alguma proteção ao policial. Fosse o episódio uma triste exceção já seria o suficiente para discussão, mas infelizmente não é. As câmeras não mudaram nem um centímetro a realidade experimentada pelos policiais paulistas. Há vários casos de policiais alvejados e agredidos mesmo fazendo uso das câmeras corporais. Mas nada disso demove os especialistas de sua fixação pelo equipamento. Questionar o emprego das câmeras é flertar com a alcunha de fascista, é negar as evidências científicas reveladas pelos intelectuais e suas pesquisas.

O esforço desses seres que se enxergam como se fossem constituídos de um material especial, distinto e habitam os departamentos de sociologia e afins, a partir de onde desenham a sociedade tal qual melhor lhes convém, é tão mais ruidoso quanto maior a mentira que eles precisam transformar em verdade. Ações judiciais com pedidos vagos e genéricos, aparição constante na grande mídia, colóquios acadêmicos aos montes e outra variedade de ações orquestradas pela intelligentsia estão entre os estratagemas de sempre na tentativa de convencer sobre a importância das câmeras. No último dia 30 de março, por exemplo, o Núcleo de Estudo de Violência da Universidade de São Paulo realizou um evento virtual com o tema “O dilema das câmeras corporais: o que pensa a sociedade civil?”. Superando o truque linguístico que infere sociedade civil como se fosse a sociedade real, mas que na verdade trata-se tão somente de sociedade civil no sentido gramscista, ou seja, da organização e produção de vontades coletivamente organizadas. Dito de outro modo, grupos organizados, possuindo os meios de ação para tal, produzindo e transformando o senso comum das pessoas de acordo com os interesses do movimento comunista de concentração de poder em um grupo ou indivíduo.

O evento foi transmitido ao vivo e quando acessei o link tinha a enorme audiência de 11 pessoas. Hoje, quando escrevo esse texto, quase duas semanas após a transmissão, o vídeo do evento apresenta 391 visualizações. Parece-me que as pessoas estão pouco ou nada interessada no que esses portadores de soluções para a segurança pública pautadas por evidências científicas têm a dizer. Mas a baixa audiência não lhes constrange nenhum um pouco. Na verdade, esses especialistas construíram um muro e se encastelaram dentro de suas ideias. Vivem numa espécie de provincianismo intelectual, alimentando entre si seus devaneios sob os títulos que eles conferem a si mesmos. A ideia deles é constranger o poder público com essa gritaria e assim superar a falta de apoio e legitimidade popular que suas pautas apresentam.

Como veem suas intenções como as mais nobres possíveis, quais sejam a proteção dos direitos humanos, a coerência dos argumentos é apenas um mero detalhe, e como tal pode ser superado. Por exemplo, um dos argumentos da intelligentsia contra a implantação de exame criminológico para progressão de regime dos presos, novidade trazida pelo projeto de lei que extinguiu as saídas temporárias, aponta que os custos para instituir tal pratica são elevados e sobrecarregariam ainda mais o orçamento público. Certamente você não encontrará nenhuma vírgula criticando o custo exorbitante da compra e manutenção do sistema de câmeras corporais instituído pela polícia militar paulista. Também não há nenhuma resposta sobre como as câmeras corporais de fato ajudariam a polícia a coibir os 170419 veículos roubados no Estado de São Paulo entre os anos de 2018 e 2021, segundo os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Como diz escreve o pensador americano Thomas Sowell em “Intelectuais e sociedade”

Embora praticamente qualquer pessoa possa nomear uma lista de desenvolvimentos médicos, científicos ou tecnológicos que de alguma forma melhoraram a vida das pessoas das gerações de hoje, em comparação com a vida das gerações do passado, incluindo as pessoas da última geração, seria um desafio mesmo para uma pessoa altamente informada dizer três formas nas quais nossa vida é hoje melhor como resultado das ideias de sociólogos ou de desconstrucionistas.

A consolidação da hegemonia desses intelectuais no ambiente cultural e universitário ocorreu pari passu com a explosão da violência urbana brasileira. Do criminoso ladrão de galinhas às organizações narcoterroristas que dominam parcelas consideráveis das grandes cidades brasileiras e projetam seu poder mundo afora. A reação de uma mente sadia seria buscar formar de fortalecer as polícias e devolver a tranquilidade do Brasil da primeira metade do século passado. Uma mente sadia eu disse…


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