Jornalismo militante!

A primeira coisa que um homem fará por seus ideais é mentir.

J.A. Schumpeter

Em 13 de fevereiro de 1945, no âmbito da Segunda Guerra Mundial, os Aliados iniciaram um ataque aéreo brutal contra a cidade de Dresden, capital do estado da Saxônia, na Alemanha. As bombas aliadas fizeram a “Florença do Elba” arder em chamas durante semanas e causou milhares de mortes. Àquela altura, pressionado pelos Aliados a Oeste e pelo colossal Exercito Vermelho no Leste, mesmo o mais fervoroso dos nazistas já tinha como certo o ocaso do Reich. Mesmo diante do fim certo, a máquina de propaganda nazista construída por Joseph Goebbels cuidou de explorar o bombardeio de Dresden como guerra informacional contra os Aliados.

A história é contada pelo historiador Frederick Taylor no livro “Dresden”. Assim que as autoridades nazistas tomaram conhecimento do ataque devastador liderado pelo Comando de Bombardeiros da Real Força Aérea inglesa, Goebbels deu início à sua guerra de propaganda. As estimativas iniciais davam conta de algo em torno de vinte mil mortes, mas houve um relatório que foi “vazado” para a imprensa que apresentava um zero a mais. Além do número de mortes inflacionado, a propaganda do Reich inundou a imprensa ocidental com fotos de corpos carbonizados, prédios destruídos, além de repetir exaustivamente que Dresden não se tratava de um alvo militar, mas uma cidade notadamente marcada pela forte atividade cultural.

O impacto no Ocidente foi sentido imediatamente e os jornais passaram a questionar a legitimidade do ataque e a pretensa superioridade moral dos Aliados, os quais se apresentavam como libertadores da Europa que vivia sob o julgo do nazismo. O livro mostra que políticos britânicos e americanos questionaram a brutalidade e os resultados da ação. A repercussão foi tamanha que Churchill, durante sua declaração de agradecimento no fim da guerra não mencionou o nome de Sir Arthur Harris, o comandante responsável pelo ataque a Dresden e outras cidades alemãs. Após o fim da guerra, o fato de Dresden ter permanecido sob a influência soviética como parte da República Democrática Alemã contribuiu para o reforço da narrativa criada pelos nazistas. O ataque a Dresden permanece como uma mancha no imaginário ocidental quando se fala em Segunda Guerra Mundial.

A despeito da narrativa criada, Frederick Taylor mostra que naquele contexto de guerra total, Dresden era sim um alvo militar dada a presença de algumas indústrias que contribuíam para o esforço de guerra alemão, além da concentração de tropas que passavam no eixo Leste-Oeste da guerra.

Dresden é um exemplo de como Estados totalitários usam a imprensa como ferramenta de manipulação, de desinformação, como arma de guerra informacional. Nazistas e soviéticos criaram estruturas gigantescas de propaganda e desinformação oficial. Os soviéticos foram além, não se restringiram aos limites de sua fronteira e espalharam sua máquina de desinformação mundo afora, sobretudo no Ocidente. Redações de jornais do mundo inteiro foram ocupados por agentes soviéticos ou meros simpatizantes. Praticamente toda a historiografia que retrata o século XX sofreu alguma influência do Kremlin. A narrativa do Papa Pio XII e sua suposta relação com Hitler é talvez o maior exemplo de narrativa criada nos corredores da KGB que se espraiou pelo Ocidente e há décadas é tida como verdade inequívoca. Mas diante do colapso do Império criado por Lenin e de grande parte de outros estados totalitários congêneres, o sentimento geral era de que a partir de então restaria uma imprensa isenta, imparcial, instrumento de utilidade pública pronta para denunciar conluios e falcatruas de políticos e poderosos. Não poderiam estar mais enganados já que as fundações erigidas pelos bolcheviques e lapidadas pelo italiano Antônio Gramsci nunca estiveram tão fortes, notadamente no Brasil.

“O advogado que defende um assassino instruído, alegando que é mais desenvolvido do que suas vítimas e não pôde deixar de matar a fim de conseguir dinheiro, é, desde já, nosso. Os escolares que matam um mujique para ter uma sensação diferente são nossos. Os jurados que absolvem quaisquer criminosos são nossos. O procurador que treme, lá no tribunal, por não ser liberal o bastante é nosso, nosso. Os administradores, os literatos…oh, os nossos são muitos, muitos mesmo, e nem sabem disso!”. Trecho de Os Demônios, de Fiodor Dostoievski

As raízes da cosmovisão marxista impregnaram tão profundamente a inteligência nacional que se tornou desnecessário a existência de um órgão como o Comintern proferindo ordens, construindo narrativas, estas a serem repercutidas e propagadas pela intelligentsia, políticos e militantes esquerdistas mundo afora. O movimento hoje anda sozinho, como o trecho acima da célebre obra do escritor russo. Não há um comando central, funciona de maneira orgânica, uma sincronia difusa entre academia, mídia e burocracia, sem ser possível distinguir um do outro tamanha a uniformidade de pensamento, chavões, que repetidos exaustivamente se auto afirmam como a expressão pronta e acabada do senso comum. Factoides, desde que úteis à agenda revolucionária são explorados como um dado concreto, irrefutável. Impressões e opiniões se confundem com fatos por meio de uma deliberada confusão na linguagem. Os fatos recentes no litoral paulista constituem um exemplo para análise desse comportamento.

Após os tristes episódios das mortes de policiais, como a do Soldado Cosmo e do Cabo Silveira, o Governo Estadual lançou nova investida contra os narcoterroristas que se instalaram na Baixada Santista ao longo das últimas décadas. Não se trata do criminoso comum, “humanizado” nas palavras do nosso infame atual Presidente da República, mas sim de verdadeiros terroristas criminais. Utilizam armas e técnicas típicas de grupos armados, atuam inclusive com uma rede extensa de propaganda por meio de organizações do terceiro setor e dentro do próprio aparato estatal, vide exemplo de como a Ouvidoria das Polícias e a Defensoria Pública do Estado de São Paulo atuam em defesa desses criminosos.

Após os primeiros confrontos, onde os criminosos felizmente levaram a pior, a imprensa, como de costume e já esperado, começou seu sórdido plano de desinformação. Como se houvesse um Joseph Goebbels coordenando a criação de falsas narrativas, ou um Stalin estimulando campanhas de desarmamento e pacifismo no Ocidente por meio da mídia e da militância comunista, enquanto aumentava seu arsenal nuclear monstruosamente, a imprensa passou atacar as ações policiais.

O roteiro é o mesmo: moradores denunciando ações truculentas da polícia, mortes com sinais de tortura, há relatos até de um criminoso morto em que policiais teriam tirado sua tatuagem com uma faca. Tudo isso sem qualquer prova. A semelhança com outros casos é tão grande que arrisco dizer que nenhum morador sequer foi ouvido, e digo isso por experiência própria. Após me envolver num confronto no qual morreram quatro criminosos, a imprensa inventou uma série de denúncias desse tipo. Uma delas dava conta de que após o confronto, policiais da unidade da qual eu fazia parte foram à favela em busca de testemunhas e celulares que eventualmente teriam gravado a ação, invadiram casas, ameaçaram moradores, entre outras atrocidades. Uma matéria apresentava relatos de vários moradores que presenciaram essas ações. A verdade é que, a fim de evitar exatamente esse tipo de narrativa, o Comandante da Unidade à época proibira os policiais de passarem pelo município onde ficava a favela. Das duas uma: ou os moradores mentiram, o que é possível, ou os jornalistas. Talvez tenha sido um pouco de cada, o que não infirma a parcela de culpa da imprensa. Um jornalismo dito responsável haveria de checar minimamente fontes diversas antes de qualquer coisa. Mas pouco importa se é mentira, desde que a denúncia sirva ao objetivo da intelligentsia, nesse caso, demonizar a polícia.

Denúncias das mais estapafúrdias são apresentadas sem qualquer fundamento. A seguir, instituições da sociedade civil reproduzem essas denúncias e por meio dos seus especialistas condenam a priori a polícia. Remissões a outras ações onde houve morte de criminosos, casos de repercussão mesmo que em outros países, além do trunfo de todo intelectual “filho de 1968”, os crimes da ditadura. Por fim, o aparato estatal dá o tiro de misericórdia e inunda o Poder Judiciário com pedidos absurdos, todos no sentido de controlar a polícia. Toda essa trama é alardeada por quase todos os veículos da imprensa tradicional de maneira repetitiva. Enquanto os criminosos não estiverem seguros para matar policiais, civis e exportarem suas toneladas de cocaína pelo Porto de Santos como fazem mensalmente, esse mecanismo continua funcionando.

Pouco lhes importa o sangue derramado pelos policiais, ou o terror ao qual os civis inocentes são submetidos cotidianamente nessas favelas. Os responsáveis por essa engrenagem estão verdadeiramente comprometidos com seus ideais perversos, sua visão de mundo distorcida e não vão parar. Sabedores que o homem comum não aguenta mais se ver preso enquanto os criminosos gozam de imunidade e status de celebridade, esses arquitetos da destruição gritarão cada vez mais alto, até conseguirem silenciar de uma vez a voz daqueles que clamam por justiça.


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