Iuri Jivago é um jovem médico, figura conhecida dentro da aristocracia russa czarista, com um futuro promissor, costuma frequentar bailes e a alta sociedade de Moscou. Poeta talentoso, procura traduzir em versos toda sua sensibilidade diante dos mistérios da vida. A caridade com que exerce seu mister não se confunde com a virtude concebida pela Graça divina, mas se dá em função da sua compaixão com o ser humano, seu amor pela vida.
Pouco mais de um século antes, dezesseis moças vivem o matrimônio com Cristo. A rotina dentro do Carmelo gira em torno da fé, da vocação representada pelo chamamento à vida ascética, voltada exclusivamente para Deus. Elas não se veem presas, muito pelo contrário, já que ao aceitarem sua vocação, se libertaram das contingências da matéria. A vida do médico russo e das Carmelitas tem em comum a forte paixão pela vida. O primeiro na dimensão afetiva, sentimental, enquanto as Carmelitas, no aspecto religioso. Ambos tiveram seus mundos obliterados pelo ódio da política revolucionária.
O personagem do romance de Boris Pasternak, que ganhou as telas do cinema por meio de David Lean em 1965 vê seu mundo devastado pela Revolução Bolchevique. Para além das questões mais aparentes dentro do novo regime que buscou destruir toda e qualquer forma de tradição do povo russo, o que Jivago nota quando retorna do front da Primeira Guerra e chega numa Rússia vivendo o alvorecer de uma nova sociedade é a destruição do indivíduo.
Em sua guerra contra a aristocracia acusada de corrupta e decadente, os bolcheviques cuidaram de perverter toda a sociedade. Aniquilaram a dimensão do indivíduo ao colocar o espírito coletivista como a razão de existir de sua sociedade. As artes, a família, o pensamento, tudo deveria funcionar em nome do coletivo, na medida exata proposta por burocratas que passavam a desenhar a nova sociedade. A qualquer sinal de resistência, a violência e brutalidade seriam remédios necessários para pavimentar o caminho rumo ao Paraíso criado pelos ideólogos.
Jivago, um médico humanista e poeta, sofre ao ver a degeneração do indivíduo até seu aniquilamento. Busca se refugiar em seus versos, mas padece no mundo cinzento e brutal criado pelos soviéticos. Mas os bolcheviques não foram os primeiros a declarar guerra contra a humanidade. Pouco mais de cem anos antes os jacobinos franceses lançaram a mão do terror e inauguraram o primeiro estado totalitário da modernidade.
Enquanto “Doutor Jivago” ilustra a violência revolucionária sob a ótica de um aristocrata, “O diálogo das Carmelitas” retrata a guerra engendrada pelos Jacobinos contra o clero durante a Revolução Francesa.
O filme, de 1960 e adaptado de um livro de Gertrud Von Le Fort e de uma peça de Georges Bernanos, conta a história real de dezesseis carmelitas francesas que tiveram um fim trágico na infame guilhotina, arma símbolo do terror jacobino.
À medida em que a França experimenta o recrudescimento da violência revolucionária, as Carmelitas reforçam sua fé vivendo no claustro, e mesmo diante dos soldados jacobinos, que passam a acossar o Carmelo com ameaças, as moças, aparentemente frágeis, fazem de seus hábitos e de sua crença armaduras inexpugnáveis.
Acusadas de fanatismo pelo “Comitê de Salvação Pública”, órgão criado por Robespierre para salvar a revolução de dissidentes, tiveram o mesmo destino que milhares de franceses durante no período conhecido como “Reino do Terror”.
A inocência e a fé de mulheres não escaparam da violência política da revolução que varreu a França, executou Rei e Rainha, nobres, padres, e qualquer um fosse nomeado como inimigo do movimento que fundaria uma nova sociedade e um novo homem. Tal qual os bolcheviques, os jacobinos declararam guerra contra todos os elementos da sociedade que julgavam ser obtusos, tirânicos, e por fim, criaram sua própria tirania.
Aqui as duas histórias se cruzam. A história fictícia de Jivago e o drama real das Carmelitas retratam as consequências da mentalidade revolucionária, do avanço da esfera política sobre a dimensão do indivíduo. Ao ignorar as formas tradicionais de associação, ao pretender criar instituições ignorando o passado, usando tão somente a medida de seu intelecto, os franceses do século XVIII e os russos do século XX promoveram a destruição de suas sociedades. Ao acordarem do sonho de um mundo novo, se viram envoltos num mar de sangue, em guerras fratricidas, resultado inequívoco de todos os movimentos que buscaram fundar uma nova realidade a partir das cinzas do passado.
Onde havia beleza na arte contemplada e criada por nobres aristocratas os revolucionários viam afetação, indolência e perversão. Na fé e ascese da vida religiosa, viam idolatria e hipocrisia. Como diz Edmund Burke “…em geral, aqueles que habitualmente trabalham na busca e exibição de falhas não são qualificados para a realização de reformas, porque suas mentes não estão apenas desprovidas de padrões do justo e bom, mas não têm, por hábito, prazer na contemplação de tais coisas. Por odiar tantos os vícios, eles acabam amando o homem muito pouco…”. O ressentimento, o ódio contra a humanidade é traço marcante e comum a esses dois movimentos. A violência como forma de correção do curso da história foi usada na França de Robespierre, e com a tríade Lenin, Trotsky e Stalin. Todos eles desprezam a sociedade, e nutriam uma egolatria tamanha o bastante para não se importarem com os corpos que suas visões de mundo deixavam pelo caminho.
É sintomático que Jivago tenha sofrido tanto com a destruição do mundo em que crescera e aprendera a amar, assim como as Carmelitas, muito embora estas tenham encarado a guilhotina como martírio, o que as aproximou ainda mais de Deus. Na obra de Pasternak Jivago busca a todo tempo refúgio na beleza das palavras, na sua amante ou até mesmo de um pôr do sol, de forma a manter sua vida interior protegida da brutalidade coletivista e demonstra que o indivíduo sempre pode prevalecer. Já as Carmelitas têm na fé sua arma mais forte. A cena em que elas caminham para a guilhotina, com serenidade, sem qualquer sinal de medo ou desespero, é de uma beleza arrebatadora. É a vitória do espírito sobre a carne. Elas demonstraram a todos, inclusive para seus algozes, que existe uma dimensão interior inacessível até mesmo para o mais poderoso dos tiranos, onde o indivíduo é livre inclusive para desfrutar de seu sofrimento, como diz Vitor Frankl.
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