Em “Tempos difíceis”, de Charles Dickens, o professor Thomas Grandgrind expõe sua filosofia de ensino na abertura da obra: “ O que eu quero são fatos. Não ensine nada além de fatos a estes meninos e meninas…Só se pode formar a mente de animais racionais através de fatos…”.
No início do filme “A história sem fim”, baseado no livro homônimo, um clássico da literatura infantil escrito pelo alemão Michael Ende, o protagonista, um garoto por volta de 12 anos chamado Bastian é alertado pelo seu pai sobre a necessidade de “tirar a cabeça das nuvens e manter os pés no chão”. O pai adverte o filho ao saber que o garoto estava escrevendo “cavalos” (Bastian o corrige e diz que na verdade eram unicórnios) no livro escolar de matemática.
Na história criada por Ende, o reino chamado “Fantasia” é ameaçado por uma força sombria conhecida como “Nada”. O “Nada” avança e consome toda forma de existência de “Fantasia”, um mundo repleto de seres mágicos. O avanço do nada põe em risco a Imperatriz do reino, que adoece misteriosamente. A única forma de salvá-la e ao reino e dar a ela um novo nome, o que só pode ser feito por uma criança humana. Tanto a filosofia de ensino baseada somente em fatos do professor Thomas Grandgrind ou o “Nada”, uma força que a tudo consome simbolizam o mesmo problema. A guerra contra a imaginação.
Chesterton em “Ortodoxia” diz que “louco é o homem que perdeu tudo, menos a razão”. O inglês entendia a imaginação como uma força que desconhece as fronteiras da matéria. Entendia os contos de fada e toda sua fantasia como fundamentais para levar a imaginação humana além dos esquemas estreitos do racionalismo moderno, cujo todo saber só fez o homem se aprisionar nos estreitos limites dos “fatos”.
O “Nada” apresentado por Michael Ende não poderia ser uma referência mais direta ao niilismo. Uma humanidade embotada, desiludida de si mesma, que enxerga no assassinato de bebês uma forma de direito, e na maternidade a gênese de toda uma sociedade irremediavelmente opressora e injusta. Dostoievski, um crítico do niilismo e das ideias revolucionárias do seu tempo forjou “Raskolnikov” e o preencheu com o nada e nos deu um exemplo profundo e assustador sobre as consequências de uma alma humana esvaziada de sentido e detida numa espécie de racionalismo cínico
Depois de décadas de educação compulsória baseada em fatos e na razão o “Nada” desfruta de notável conforto. As crianças tiveram suas mentes sequestradas pelos burocratas do aparato educacional, e no lugar da imaginação, a qual poderia levá-las a mundos inexplorados, talharam ressentimento e mal-estar. No lugar de contos de fada que ajudavam a criança a se situar dentro da realidade, através do qual o bem e o mal lhe eram apresentados por meio de uma linguagem simbólica, colocamos fatos e todo o entulho ideológico da moda.
O escritor americano Anthony Esolen diz que, “quando você priva seu filho do alimento das lendas populares, você não só refreia sua imaginação por um momento. Você ajuda a tornar-lhe incompreensíveis vastos campos da arte humana, sem mencionar a vida humana…”. É exatamente isso que estamos fazendo, e com notável êxito há várias décadas. O “Nada” já consumiu Beethoven e Dante e tudo o mais. Todo esplendor arquitetônico das grandes catedrais cedeu lugar às monstros de vidro e concreto com seus ângulos retos. Sem imaginação, todo o tesouro cultural que nos foi legado corre risco de se perder no meio da história, e vivermos dentro do vazio da razão e dos fatos.
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