Oppenheimer

Ontem assisti à mais recente obra de Christopher Nolan, Oppenheimer! Nolan é uma ilha de criatividade envolto a um oceano de pornografial cultural em que se transformou o cinema de Hollywood. Os doláres gerados por sucessos como a trilogia do “Cavaleiro das Trevas” lhe conferiram autonomia criativa que lhe permite ainda manter-se imune às futilidades da moda no cinema, como diversidade, empoderamento feminino, e outras idiotices. Mas falemos do filme em si.

Oppenheimer trata da história do “pai” da bomba atômica. O cientista J. Robert Oppenheimer foi diretor do Projeto Manhattan, esforço colossal de diversos cientistas e profissionais de várias áreas a fim de construir a arma que daria fim à guerra. Nolan gosta de manipular a linha temporal de seus filmes, abandonando completamente a linearidade narrativa ao sobrepor as histórias, as quais nem sempre tem um desfecho de fácil compreensão. “A origem” é talvez o melhor exemplo, para não citar “Tenet”, talvez um dos filmes mais confusos que eu tenha assistido. Neste não é diferente, e o espectador é apresentado à várias linhas temporais do protagonista, mas que por se tratar de um filme biográfico, o mínimo conhecimento do contexto histórico permite que as coisas sejam encaixadas no devido lugar.

Inicialmente já se desvela o pano de fundo que perdurará ao longo de todo o filme. O conflito político-ideológico entre Estados Unidos e União Soviética, e como a burocracia estatal americana cuidou de perseguir e neutralizar a influência comunista, nesse caso, dentro da comunidade acadêmica, da qual Oppenheimer fazia parte. Também mostra como as recentes descobertas da física quântica abriam um infinito de possibilidades teóricas, e como a classe de cientistas reagia diante disso.

Com a eclosão da guerra e os avanços da máquina nazista, Oppenheimer é chamado para o projeto que mudaria o mundo para sempre. A construção da bomba atômica consumiu o que os Estados Unidos tinham de melhor no campo do conhecimento científico, e o governo americano não poupou doláres nem esforços para vencer os nazistas na corrida pela fissão do átomo.

Entre os avanços de Oppenheimer na condução do projeto Manhattan vemos seu depoimento para uma comissão que buscava apurar sua eventual participação como espião soviético. Há também outra narrativa, que é a participação de Robert Downey Jr. no papel de Lewis Strauss, um dos protagonistas do desenvolvimento do programa nuclear amearicano, e que diante de uma comissão de congressistas precisava explicar suas relações com o protagonista, ainda sob o pano de fundo de seu suposto envolvimento com os soviéticos. O resto todo mundo já sabe, e os efeitos devastadores da Little Boy e Fat Man sobre Hiroshima e Nagasaki falam por si.

Talvez por ser um filme biográfico, e como tal apresentar algum limite à criatividade, esse me pareceu o filme mais enfadonho de Nolan. Há uma certa confusão ao abordar tantos elementos diferentes no mesmo filme. Oppenheimer já é apresentado como um homem adulto, pronto e acabado. Sem mencionar nada sobre seu passado perdemos a oportunidade de especular sobre os motivos de suas escolhas. Ora um cientista clichê, com um mente perturbada e egolatra, ora um pacifista com tendências comunistas, e por fim um arrependimento pouco convicente. Oppenheimer é um personagem raso, inicialmente preocupado com a ascensão do fascismo, o que aliado às preocupações sobre direitos do trabalho teriam aproximado o cientista do movimento comunista. Em outros momentos fala de patriotismo, para em seguida flertar com o pacifismo. Seu arrependimento não parece sincero, tampouco a consciência das consquências de sua obra. Como disse, talvez Oppenheimer tenha sido exatamente assim, um sujeito comum, o que possa ter limitado Nolan e sua imensa criatividade em criar protagonistas profundamente complexos.

A espionagem anticomunista, o alvorecer da física quântica dentro da academia, o esforço de guerra e os dilemas morais sobre a bomba. Nolan traz todos esses elementos para o filme, sem contudo entrelaçá-los de forma satisfatória. Talvez porque cada um desses elementos por si só já fosse o bastante para um único filme, ou quem sabe não tenham funcionado quando colocados na mesma película. A impressão que eu tive é que todos eles foram colocados de maneira superficial. Por exemplo, o macartismo americano e como a estrutura burocrática funcionava para perseguir ameaças comunistas, reais ou imaginárias,foi extensamente abordada no brilhante “J. Edgar”, filme estrelado por Leonardo Dicaprio, e aqui se reduz às comissões que interrogam personagens envolvidos no advento da bomba e no programa nuclear dos Estados Unidos.

O dilema moral sobre a bomba é apressado e superficial, sobretudo quando se tratam de pessoas cujo o intelecto e a compreensão da realidade são excepcionais, como Niels Bohr, Einstein e o próprio Oppenheimer. Sua pretensa culpa por ter criado uma arma de destruição em massa é apresentada através de diálogos burocráticos para uma comissão, que de forma repetitiva lhe pergunta sobre sua aproximação com grupos comunistas no perído anterior a guerra. Nada de especulações profundas sobre ter levado o homem à era do átomo, onde uma eventual guerra mundial tem potencial de levar a humanidade para a pré-história.

Ainda assim, no campo estético Nolan mantém o padrão de sempre, com uma trilha sonora que dá a urgência dos pontos altos da narrativa. O silêncio que precede a explosão no teste da bomba é Nolan em seu melhor momento, manipulando o som e o close na expressão do cientista antes de ser atingido pela onda da explosão. A paisagem do Novo México e as colisões entre átomos “dentro” da cabeça de Oppheimer nos fazem lembrar a capacidade do diretor em manipular o claro e o escuro, como em “Interestelar”

Por fim, o filme foi aquém das minhas expectativas, sobretudo por se tratar de Christopher Nolan. Mas é um filme que vale a pena ser visto, e de alguma forma ele nos alerta para a existência de limites que o homem talvez não devesse cruzar. “O progresso é simplesmente uma ideia moderna, e portanto, falsa”. Nietzsche via a falácia da ideia de progresso infinito que envaideceu o homem, principalmente depois do Iluminismo. Longe de ignorar os avanços da técnica, e os frutos de uma ciência que levou o homem à Lua, mas ainda somos os mesmos de sempre, com uma engenhosidade única, tanto para o bem como para o mal. A era atômica é um desses progressos controversos, e que exige do homem uma responsabilidade sem precedentes.


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